terça-feira, 19 de julho de 2011

“Quando Jejuares, Lava o Rosto e Unge a Cabeça”

A mais fascinante poesia do homem plenamente cristificado consiste em fazer
com leveza as coisas pesadas, — com facilidade as coisas difíceis, — com suavidade as
coisas amargas, — com alegria as coisas tristes, — com sorridência as coisas dolorosas.
O homem bom asceticamente bom, eticamente virtuoso, faz pesadamente as coisas
pesadas, tristemente as coisas tristes, dificilmente as coisas difíceis, amargamente as
coisas amargas, e assim por diante. Nisto há verdade e bondade, mas, não há beleza e
poesia. A suprema perfeição do homem crístico é uma verdade revestida de beleza. A
vida do homem plenamente cristificado é comparável à máquina de aço de lei, que
funciona com absoluta precisão e infalibilidade, mas o seu funcionamento é leve como a
luz, silencioso como a trajetória dos astros, espontâneo como o amor, sorridente como
um arco-íris sobre vastos dilúvios de lágrimas.

O homem totalmente profano não pratica as coisas boas, procura evitá-las e ser
alegremente mau.
O homem semi-espiritual, simplesmente cristão e virtuoso, pratica o bem, mas
com gemidos e dor; ser bom é, para ele, carregar a cruz, cumprir heroicamente o
imperativo categórico do dever.
O homem plenamente espiritual, cristico, entrou na zona da suprema sabedoria,
que é leve e luminosa, espontânea e radiante. Ele é, de fato, a “luz do mundo”, é como
esse sol de estupendo poder e de inefável suavidade, esse sol que lança pelos espaços as
esferas gigantescas — mas sua luz não quebra a delgada lâmina de uma vidraça que
penetra, nem ofende a delicadeza de uma pétala de flor que beija silenciosamente. O
homem crístico é como o sol, suavemente poderoso, poderosamente suave.
É poderoso — mas não exibe poder.
É puro — mas não vocifera contra os impuros.
Adora o que é sagrado — mas sem fanatismo.
É amigo de servir — mas sem servilismo.
Ama — sem importunar a ninguém.
Vive alegre — com grande compostura.
Sofre — sem amargura.
Goza — sem profanidade.
Ama a solidão — sem detestar a sociedade
É disciplinado — sem fazer disto um culto.
Jejua — mas não desfigura o rosto para mostrar a vacuidade do estômago.
Pratica abstinência de muitas coisas — sem fazer disto uma lei ou mania.
É um herói — mas ignora qualquer complexo de heroísmo.
É virtuoso — mas não é vitima da obsessão de virtuosidade.
Trabalha intensamente, com alegria e entusiasmo
— mas renuncia serenamente, a cada momento, aos frutos do seu trabalho.
Assim é o homem que se tornou “luz do mundo”.
*
Mas, como pode um homem fazer hoje, por um querer espontâneo, o que ontem
só fazia por um dever compulsório? Como pode jejuar com alegria, hoje, de rosto em
festa, quando ontem só jejuava com tristeza, de rosto desfigurado?
Que foi que lhe aconteceu entre esse hoje e aquele ontem? Entre esse jubiloso
querer de hoje e aquele doloroso dever de ontem?
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Algo de estranho e de grande deve ter acontecido...
Sim, aconteceu-lhe algo de estranho e de grande — aconteceu-lhe a coisa maior
do universo que pode acontecer a um ser mortal — aconteceu-lhe a graça divina de uma
grande, vasta e profunda compreensão de si mesmo, do Deus nele, do seu Cristo
interno.
Esse homem superou a velha ilusão de que “ser bom” seja necessariamente “ser
sofredor”.
Certamente, ser bom é cruz e sacrifício no seu estágio inicial, e por isto o homem
bom é, geralmente, um sofredor. Mas ser bom, no seu estágio final, não é sofrimento, é
gozo e felicidade. Se a vontade de Deus pode e deve ser feita “assim na terra como nos
céus”, e se, nos céus, essa vontade divina é feita com imensa alegria e felicidade, é certo
que, segundo as palavras do divino Mestre, a vontade de Deus também pode ser
cumprida, aqui na terra, com alegria e felicidade, O homem terrestre também pode ser
jubilosa-mente bom, a sua mais pura felicidade pode consistir em ser bom.
A compreensão é uma misteriosa alquimia, transmuta o caráter doloroso do ser
bom em algo gozoso. O doloroso provém da personalidade do ego, ainda não
plenamente integrada na divina individualidade do Eu; mas, uma vez que o pequeno ego
humano se integrou no grande Eu divino assume o fenômeno do sofrimento caráter
totalmente diverso daquele que tinha antes.
A dolência acaba em delícia.
O sacrifício perde o seu caráter habitual de dolorosidade e se reveste do caráter
da sacralidade. Sacrifício vem de sacrumfacere, fazer coisa sagrada. Ora, a coisa
mais sagrada que existe é o amor. Por isto, o sacrifício assumido por amor é
sacrum, coisa sagrada, é um ato litúrgico.
*
Que semelhante alquimia seja possível, di-lo claramente o divino Mestre:
“Meu jugo é suave e meu peso é leve.”
Di-lo também o seu grande discípulo Paulo de Tarso: “Eu transbordo de
júbilo no meio de todas as minhas tribulações.”
Afirma-o, também, um dos modernos discípulos do Cristo, Mahatma
Gandhi: “Nada tenho que perdoar a ninguém, porque nunca ninguém me
ofendeu.”
É esta a suprema perfeição do homem crístico: praticar c dever austero
da Verdade com a leve e luminosa poesia do querer espontâneo.