sábado, 6 de agosto de 2011

O filho ocioso

Reportava-se a pequena assembléia a variados problemas da fé em Deus, quando Jesus,
tomando a palavra, narrou, complacente:
— Um grande Soberano possuía vastos domínios. Terras, rios, fazendas, pomares e rebanhos
eram incontáveis em seu reino prodigioso. Vassalos inúmeros serviam-lhe a casa, em
todas as direções. Alguns deles nunca se perdiam dos olhos do Senhor, de maneira absoluta.
De tempos a tempos, visitavam-lhe a residência, ofereciam-lhe préstimos ou traziam-lhe flores
de ternura, recebendo novos roteiros de trabalho edificante. Outros, porém, viviam a belprazer
nas florestas imensas. Estimavam a liberdade plena com declarada indisciplina. Eram
verdadeiros perturbadores do vasto império, porquanto, ao invés de ajudarem a Natureza, desprezavam-
na sem comiseração. Matavam animais pelo simples gosto da caça, envenenavam as
águas para assassinarem os peixes em massa, perseguiam as aves ou queimavam as plantações
dos servos fiéis, não obstante saberem, no íntimo, que deviam obediência ao Poderoso Senhor.
Um desses servidores levianos e ociosos não regateava sua crença na existência e na
bondade do Rei. Depois de longas aventuras na mata, exterminando aves indefesas, quando o
estômago jazia farto, costumava comentar a fé que depositava no rico Proprietário de extenso
e valioso domínio. Um Soberano tão previdente quanto aquele que soubera dispor das águas e
das terras, das árvores e dos rebanhos, devia ser muito sábio e justiceiro — explanava consciente.
Sutilmente, todavia, escapava-lhe a todos os decretos. Pretendia viver a seu modo, sem
qualquer imposição, mesmo daquele que lhe confiara o vale em que consumia a existência regalada
e feliz.
Decorridos muitos anos, quando as suas mãos já não conseguiam erguer a menor das
armas para perturbar a Natureza, quando os olhos embaciados não mais enxergavam a paisagem
com a mesma clareza da juventude, inclinando-se-lhe o corpo, cansado e triste, para o
solo, resolveu procurar o Senhor, a fim de pedir-lhe proteção e arrimo.
Atravessou lindos campos, nos quais os servos leais, operosos e felizes, cultivavam o
chão da propriedade imensa e chegou ao iluminado domicílio do Soberano.
Experimentando aflitivo assombro, reparou que os guardas do limiar não lhe permitiam o
suspirado ingresso, porque seu nome não constava no livro de servidores ativos.
Implorou, rogou, gemeu; no entanto, uma das sentinelas lhe observou:
— O tempo disponível do Rei é consagrado aos cooperadores.
— Como assim? — bradou o trabalhador imprevidente. — Eu sempre acreditei na soberania
e na bondade do nosso glorioso ordenador...
O guarda, contudo, redargüiu, sem pestanejar:
— Que te adiantava semelhante convicção, se fugiste aos decretos de nosso Soberano,
gastando precioso tempo em perturbar-lhe as obras? O teu passado está vivo em tua própria
condição... Em que te servia a confiança no Senhor, se nunca vieste a Ele, trazendo um minuto
de colaboração a benefício de todos? Observa-se, logo, que a tua crença era simples meio de
acomodar a consciência com os próprios desvarios do coração.
E o servo, já comprometido pelos atos menos dignos, e de saúde arruinada, foi constrangido
a começar toda a sua tarefa, de novo, de maneira a regenerar-se.
O Mestre calou-se, durante alguns momentos, e concluiu:
— Aqui temos a imagem de todo ocioso filho de Deus. O homem válido e inteligente
que admite a existência do Eterno Pai, que lhe conhece o poder, a justiça e a bondade, através
da própria expressão física da Natureza, e que não o visita em simples oração, de quando em
quando, nem lhe honra as leis com o mínimo gesto de amparo aos semelhantes, sem o mais
leve traço de interesse nos propósitos do Grande Soberano, poderá retirar alguma vantagem de
suas convicções inúteis e mortas?
Com essa indagação que calou nos ouvidos dos presentes, o culto evangélico da noite foi
expressivamente encerrado.