segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Oração inusitada

Ali se reuniam sadios e doentes no acanhado Centro Espírita, onde resplendiam as luzes do Consolador, em plena Colônia de Hansenianos.
Terminara o estudo evangélico apresentado por itinerante servidor da Causa.
O dirigente se ergueu em visível dificuldade.
Mutilado e quase sem forças, após vinte anos de hanseníase, começou a orar em agradecimento a Deus. Inspirado, subitamente nimbou-se de safirina claridade.
A débil voz, de pronto revitalizada, exorou com emoção a impregnar todos os corações presentes:
“Divino Médico das Almas:
Ei-nos a agradecer-Te a lepra com que nos honras atual reencarnação, com que nos dispomos ao imperioso resgate do passado culposo.
Não Te suplicamos por nós, que ora nos redimimos, mas por eles, os irmãos sadios, lá fora jornadeia anestesiados pelo tóxico da ilusão.
Por aqueles que, distraídos no corpo juvenil, malbaratam a sublime concessão da mocidade.
Pelos que, amparados pelo vigor da saúde, se comprometem, lamentavelmente, no ultraje ao patrimônio somático, adquirindo pesados ônus para pagar mais tarde.
Por quantos se encontram aquinhoados pelos valores amoedados e se envenenam nos banquetes da luxúria e do desperdício, diante de tantos necessitados.
Por aqueles que envelhecem revoltados ante o desgaste físico, sem, no entanto, haverem conhecido a enfermidade de longo curso, a paralisia demorada e afligente, as dores angustiantes dos diagnósticos difíceis de serem elucidados.
Pelos distraídos das coisas espirituais.
Por aqueles que fingem ignorar-Te, transitando da face brejeira ao sombrio cárcere da loucura...
Nós, os que estamos aquinhoados pelas rosas da putrefação carnal, sem outra rota, já nos identificamos com a do Evangelho e Te conhecemos!
Iluminados pela fé lenificadora da Imortalidade, choramos e sorrimos confiantes no amanhã. Embora a noite em que padecemos, descobrimos a estrela da esperança fulgurando na direção da perene madrugada que nos espera.
Eles, porém, não sabem, e, talvez, quando a hanseníase moral, que vitalizam por negligência o desrespeito à Vida, exteriorizam-se em evidentes expressões de lama no corpo que amam e de que se orgulham, talvez não tenham forças para resistir nem coragem para prosseguir...
Apieda-Te deles como tens piedade de todos nós!
Louvado sejas, Senhor!”
Ao silenciar, dúlcido pranto visitava a assembléia comovida.
Não se disse mais nada. Nem se fazia necessário.
Divaldo Pereira Franco
Por Ignotus
Livro:Espelho d'alma