quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Olhando para trás

“... Tal é aquele que tendo feito mal sua tarefa, pede para recomeçá-la
afim de não perder o benefício do seu trabalho...”
“... Rendamos graças a Deus que, na sua bondade, concede ao
homem a faculdade da reparação e não o condena irrevogavelmente pela
primeira falta.”
(Capítulo 5, item 8.)
Culpa quer dizer paralisação das nossas oportunidades de crescimento no
presente em conseqüência da nossa fixação doentia em comportamentos do
passado.
Quem se sente culpado se julga em “peccatum”, palavra latina que quer
dizer “pecado ou culpa”. Logo, todos nós vestimos a densa capa da culpa
desde a mais tenra infância.
Certas religiões utilizam-se freqüentemente da culpa como meio de
explorar a submissão de seus fiéis. Usam o nome de Deus e suas leis como
provedores do mecanismo de punição e repressão, afirmando que garantem a
salvação para todos aqueles que forem “tementes a Deus”.
Esquecem-se, no entanto, de que o Criador da Vida é infinita Bondade e
Compreensão e que sempre vê com os “olhos do amor”, nunca punindo suas
criaturas; na realidade, são elas mesmas que se autopenalizam. por não se
renovarem nas oportunidades do livre-arbítrio e por ficarem, no presente,
agarradas aos erros do passado.
Nossa atual cultura ainda é a mais grave geradora de culpa na formação
educacional dos relacionamentos, seja no social, seja no familiar. No recinto do
lar encontramos muitos pais induzindo os filhos à culpa: “Você ainda me mata
do coração!”, tática muito comum para manter sob controle uma pessoa
rebelde; ou dos filhos que aprenderam a tramóia da culpa, para obter aquilo
que desejam: “Os pais de minhas amigas deixam elas fazer isso”.
Culpar não é um método educativo, nem tampouco gerador de
crescimento, mas um meio de induzir as pessoas a não se responsabilizar por
seus atos e atitudes.
Em muitas oportunidades encontramos indivíduos que teimam em culpar
os outros, acreditando ser muito cômodo representar o papel de injustiçados e
perseguidos. Colocam seus erros sobre os ombros das pessoas, da sociedade,
da religião, dos obsessores, do mundo enfim.
No entanto, só eles poderão decidir se reconhecem ou não suas
próprias falhas, porque apenas dessa forma se libertarão da prisão mental a
que eles mesmos se confinaram.
Dar importância às culpas é focalizar fatos passados com certa
regularidade, sempre nos fazendo lembrar de alguma coisa que sentimos, ou
deixamos de sentir, falamos ou deixamos de falar, permitimos ou deixamos de
permitir, desperdiçando momentos valiosos do agora, quando poderíamos
operar as verdadeiras bases para nosso desenvolvimento intelecto-moral.
“Ninguém que lança mão ao arado e olha para trás é apto para o reino
de Deus”. (1)
Olhando para trás, a alma não caminha resoluta e, conseqüentemente,
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não se liberta dos grilhões do passado.
Todos nós fomos criados com possibilidades de acertar e errar; por isso,
temos necessidade de exercitar para aprender as coisas, de colocar as
aptidões em treino, de repetí-las várias vezes entre ensaios e erros.
A culpa se estrutura nos alicerces do perfeccionismo. Alimentamos a
idéia de que não seremos suficientemente bons se não fizermos tudo com
perfeição. Esquecemo-nos, porém, de que todo o nosso comportamento é
decorrente de nossa idade evolutiva e de que somos tão bons quanto nos
permite nosso grau de evolução. A todo momento, fazemos o melhor que
podemos fazer, por estarmos agindo e reagindo de acordo com nosso “senso
de realidade”. O “arrependimento” resulta do quanto sabíamos fazer melhor e
não o fizemos, enquanto que a culpa é, invariavelmente, a exigência de que
deveríamos ter feito algo, porém não o fizemos por ignorância ou impotência.
A Divina Providência sempre “concede ao homem a faculdade da
reparação e não o condena irrevogavelmente”. Não há, razão, portanto, para
culpar-se sistematicamente, pois ele será cobrado pelo “muito” ou pelo “pouco”
que lhe foi dado, ou mesmo, “muito se pedirá àquele que muito recebeu”. (2)
Assevera Paulo de Tarso: “a mim, que fui antes blasfemo, perseguidor e
injuriador, mas alcancei misericórdia de Deus, porque o fiz por ignorância, e por
ser incrédulo”. (3) Tem-se, dessa forma, um ensinamento claro: a culpa é
sempre proporcional ao grau de lucidez que se possui, isto é, nossa ignorância
sempre nos protege.
Não guardemos culpa. Optemos pelo melhor, modificando nossa
conduta. Reconheçamos o erro e não olhemos para trás, e sim, para frente,
dando continuidade à nossa tarefa na Terra.
(1) Lucas 9:62.
(2) Lucas 12:48.
(3) 1º Timóteo 1:13.