quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Conveniência


“... Quando derdes um jantar ou uma ceia, não convideis, nem vossos
amigos, nem vossos irmãos, nem vossos parentes, nem vossos vizinhos
que forem ricos, de modo que eles vos convidem em seguida, a seu
turno, e que, assim, retribuam o que haviam recebido de vós...”





 Fazer o bem pelo único prazer de fazê-lo, amar sinceramente dando o
melhor de nós mesmos sem pensar em retribuições - eis a base do amor
incondicional.
A sinceridade é o melhor antídoto para afastar falsas amizades. Convidar à
mesa os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos - na recomendação de
Jesus - é angariar relacionamentos satisfatórios, leais, estimulantes, sem
segundas intenções.
Talvez por querermos levar vantagens e proveito em tudo, tenhamos
atraído para o nosso círculo afetivo amizades vazias, distorcidas, que
representam verdadeiros parasitas de nossas energias. Por isso nos sentimos,
algumas vezes, inadaptados ao meio em que vivemos.
Mas se amarmos por amar, encontraremos criaturas que não se
preocuparão com as escalas hierárquicas e nos aceitarão como somos. Não
esperarão de nós toda a sabedoria para todas as respostas, apenas
compartilharão conosco o carinho de bons amigos.
O refrão da conveniência é: “vou te amar se...
Se me recompensares, serei teu amigo.
Se me convidares, eu te prestigiarei.
Se ficares sempre a meu lado, eu te amarei.
Se concordares comigo, concordarei contigo.
Jesus nos pede desinteresse nas relações, e não imposições de
conformidade com as nossas paixões. Ele nos ensina a lição de não
manipularmos ocasiões, porque toda cobrança fragiliza relacionamentos, e em
verdade é uma questão de tempo para que tudo venha a ruínas.
Os sentimentos verdadeiros não são mercadorias permutáveis, mas
alimentos nutrientes das almas, os quais nos dão fortalecimento durante as
provas e reerguimento perante as lutas expiatórias.
Quando esperamos que os outros supram nossas carências e nos
façam felizes gratuitamente, não estamos de fato amando, mas explorando-os.
Ao identificarmos jogos de manipulação, procuremos relembrar nossa
verdadeira missão na Terra, pois sabemos que não viemos a este mundo a fim
de agradar os outros ou viver à moda deles, mas para aprender a amar a nós
mesmos e aos outros, sem condições.
Em muitas ocasiões, fundimos nossos sentimentos com os de outros
seres - cônjuge, pais, filhos, amigos, irmãos - e perdemos nossas fronteiras
individuais, por ser momentaneamente conveniente e cômodo. A partir daí,
esperamos sempre retribuições deles, nossos amados, e sofreremos se eles
não fizerem tudo como desejamos.
Esquecemos de abrir o círculo da afetividade para outros seres e não
percebemos o quanto é saudável e imensamente vitalizante essa postura.

Continuamos a convidar à mesa somente aqueles com quem fazemos questão
de compartilhar mútuos interesses.
Embora, de início, não avaliemos o mal que essa atitude nos causa, é
provável que soframos a solidão num amanhã bem próximo, pois os laços
afetivos podem ser desfeitos pela morte física ou por separações outras. Por
termos restringido esses vínculos afetivos, sentiremos certamente a tristeza de
quem se acha só e abandonado como se tivesse perdido o “chão”.
A observação dos jogos sociais dar-nos-á sempre uma real percepção
de onde e quando existem encontros unicamente realizados para a busca de
vantagens pessoais. E para que possamos promover autênticos encontros,
providos de sinceridade e boas intenções, é preciso sejamos primeiramente
honestos com nós mesmos, para atrairmos as legítimas aproximações, através
de nossos pensamentos e propósitos de franqueza.
A vantagem dos relacionamentos sinceros é uma abertura de nossa
afetividade em círculos cada vez maiores, que, por sua vez, edificarão uma
atmosfera de carinho e lealdade em torno de nós mesmos, atraindo e induzindo
criaturas francas e maduras a partilhar conosco toda uma existência no Amor.