quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Imposições


“... Não é o que entra na boca que enlameia o homem, mas o que sai
da boca do homem. O que sai da boca parte do coração, e é o que torna o
homem impuro...”
“... mas comer sem ter lavado as mãos não é o que torna um homem
impuro...”



 Os costumes de uma época refletem de tal maneira sobre os indivíduos
que eles passam a vê-los primeiramente como “normas sociais”, depois como
“valores morais”, culminando finalmente como “ordens divinas”.
A liberdade de pensar e agir é um dos direitos mais sagrados do homem e,
portanto, asas poderosas para o seu adiantamento espiritual. Liberdade da
qual ele nunca deverá abrir mão, em hipótese alguma. Pessoas amarradas por
normas opressoras mal podem respirar o ar de suas próprias idéias e mal
podem se locomover para o crescimento interior, porque aspirações são
anuladas, gestos são vigiados, anseios são negados constantemente.
“Não é o que entra na boca que enlameia o homem, mas o que sai da
boca do homem.” - adverte Jesus de Nazaré às criaturas de seu tempo, que se
apegaram às práticas e regulamentos preestabelecidos pelos homens e dos
quais eles mesmos, por ser pessoas ortodoxas e intolerantes, faziam “casos de
consciencia
Os judeus, por confundirem freqüentemente leis divinas com leis civis,
atribuíam ao costume de lavar as mãos antes das refeições, à circuncisão, às
questões do sábado e a outras tantas situações sociais, motivos geradores de
polêmicas religiosas, porque se prestavam mais às práticas exteriores do que
aos verdadeiros anseios de renovação das almas.
As pessoas de bem, no início do século, declaravam que os senhores
dignos e respeitáveis deveriam somente sair à rua de chapéu, paletó e gravata,
bem como, as honradas senhoras, de forma alguma, andariam
desacompanhadas da família, devendo vestir também toda uma “toilette”
impecável com imprescindíveis luvas, chapéus, leques e lenços perfumados,
como elementos de “bem se compor” das elites da época.
No tempo de Jesus não poderia ser diferente. Ele, vivendo entre
criaturas radicais, fanáticas pelas crenças religiosas do passado, que
cultuavam “normas” e “regras” dadas pelos antigos profetas, haveria de não ser
compreendido por sua postura de relacionamento livre de preconceitos e por
ensinar sempre novos aspectos de ver e sentir a vida.
O Mestre tinha “senso de alma”, ou seja, bom senso, porque usava sua
sensibilidade e lógica para orientar a si mesmo e aos outros que lhe escutavam
as lições de sabedoria, pois era contrário à superstição e à hipocrisia dos que
“honravam com os lábios, mas não com o coração”.
O que é moral ou imoral é relativo, em se tratando de costumes e regras
sociais, porque em cada tempo, em cada era e em cada povo mudam-se as
leis sociais, mudam-se os valores, muda-se a moral social.
No entanto, a moral à qual se reportava o Cristo de Deus não era aquela
estabelecida pelos padrões imperfeitos do conhecimento humano, nem a que

faz comparações do que é adequado ou inadequado, nem a que faz estatística
e rotula coisas e pessoas. Entende-se que nossa alma tem sua própria história
de vida, que somos totalmente individualizados por termos sido expostos a
diversos estímulos e experiências diferentes ao longo da nossa jornada, na
multiplicidade das vidas, e, portanto, devemos ser vistos de conformidade com
a nossa vida interior.
Ele sabia que grande parte do nosso sofrimento ou conflitos internos
provinha do fato de nos considerarmos errados, por não estarmos dentro dos
moldes convencionados pela sociedade em que vivemos.
Matar será sempre imoral perante as Leis Divinas, apesar de que,
dentro dos padrões da “moral social”, matar na guerra émotivo de
condecorações com medalhas e honrarias.
Dessa forma, analisemos, raciocinando com discernimento:
a que moral nós estamos nos prendendo? A das leis passageiras da elite de
uma época, ou a das leis eternas e verdadeiras de todos os tempos?
Pesquisemos atentamente os alicerces de nossa conduta moral. Eles
podem ser os frutos de nossa dor, por permanecermos presos ao conflito de
“lavarmos ou não as mãos”; ou podem ser as raízes de nossa felicidade, por
seguirmos Jesus escutando a voz do nosso coração.