segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Verniz social

“... A benevolência para com os semelhantes, fruto do amor ao
próximo, produz a afabilidade e a doçura, que lhe são a manifestação.
Entretanto, não é preciso fiar-se sempre nas aparências; a educação e o
hábito do mundo podem dar o verniz dessas qualidades...”






Nem sempre conseguimos mascarar por muito tempo nossas verdadeiras
intenções e planos matreiros. Não dá para enganar as pessoas por tempo
indeterminado. Após vestirmos as roupagens da afabilidade e doçura para
encobrir rudeza e desrespeito, vem a realidade dura e cruel que desnuda
aqueles lobos que vestiram a “pele de ovelha”.
Realmente, é no lar que descortinamos quem somos. É no lar que escorre
o verniz da bonança e da caridade que passamos sobre a face e que nos
revela tal como somos aos nossos familiares.
Trazemos gestos meigos e voz doce para desempenhar tarefas na vida
pública, no contato com chefes de serviço e amigos, com companheiros de
ideal e recém-conhecidos, mas também trazemos “pedras nas mãos” ou
punhos cerrados no trato com aqueles com quem desfrutamos familiaridade.
Por querer aparentar alguém que não somos, ou impressionar criaturas a
fim de conquistá-las por interesses imediatistas, é que incorporamos
personagens de ficção no palco da vida. Ou seja, é como se cumpríssemos um
“script” numa representação teatral. Nada mais do que isso.
Em várias ocasiões, integramos em nós mesmos não só a sociedade
visivelmente “externa”, com suas construções, praças, casas e cidades, mas
também a sociedade em seu contexto “invisível”, que, na realidade, se compõe
de regras e ordens sociais, bem como dos modelos de instituições criadas
arbitrariamente. Captamos, através de nossos sentidos espirituais, todos os
tipos de energia oriunda da população. Através de nossos radares sensíveis e
intuitivos, passamos a representar de forma inconsciente e automática um
procedimento dissimulado sob a ação dessas forças poderosas.
Maquilagens impecáveis, jóias reluzentes, perfumes caros, roupas da
moda e óculos charmosos fazem parte do nosso arsenal de guerra para
ludibriar e corromper, para avançar sinais e para comprar consciências. Não
nos referimos aqui à alegria de estar bem-trajado e asseado, mas à
maquiavélica intenção dos “túmulos caiados”.
Por não nos conhecermos em profundidade é que temos medo de nos
mostrar como realmente somos.
Num fenômeno psicológico interessante, denominado “introjeção”, que é
um mecanismo de defesa por meio do qual atribuímos a nós as qualidades dos
outros, fazemos o papel do artista famoso, dos modelos de beleza, das
personagens políticas e religiosas, das figuras em destaque, dos parentes
importantes e indivíduos de sucesso, e por muito tempo alimentamos a ilusão
de que somos eles, vivenciando tudo isso num processo inconsciente.
Desse modo, nós nos portamos, vestimos, gesticulamos, escrevemos e
damos nossa opinião como se fôssemos eles realmente, representando,
porém, uma farsa psicológica.


Ter duas ou mais faces resulta gradativamente em uma psicose da vida
mental, porque, de tanto representar, um dia perdemos a consciência de quem
somos e do que queremos na vida.
Quanto mais notarmos os estímulos externos, influências culturais,
físicas, espirituais e sociais em nós mesmos, nossas possibilidades de
relacionamento com outras pessoas serão cada vez mais autênticas e
sinceras. A comunicação efetiva de criatura para criatura acontecerá se não
levarmos em consideração sexo, idade e nível socioeconômico. Ela se
efetivará ainda mais seguramente sempre que abandonarmos por completo
toda e qualquer obediência neurótica aos modelos aprendidos e
preestabelecidos.
Abandonemos o “verniz social” que nos impusemos no transcorrer da
vida. Sejamos, pois, autênticos. Descubramos nossas reais potencialidades
interiores, que herdamos da Divina Paternidade. Desenvolvendo-as, agiremos
com maior naturalidade e, conseqüentemente, estaremos em paz conosco e
com o mundo.