sábado, 17 de março de 2012

PERDÃO NA INTIMIDADE

Quando nos referimos a perdão, habitualmente mentalizamos o quadro clássico
em que nos vemos à frente de supostos adversários, distribuindo magnanimidade e
benemerência, qual se pudéssemos viver sem a tolerância alheia.
O assunto, porém, se espraia em ângulos diversos, notadamente naqueles que
se reportam ao cotidiano.
Se não soubermos desculpar as faltas dos seres que amamos, e se não
pudermos ser desculpados pelos erros que cometemos diante deles, a existência em
comum seria francamente impraticável, porquanto irritações e azedumes devidamente
somados atingiram quotas suficientes para infligir a desencarnação prematura a qualquer
pessoa.
Precisamos muito mais do perdão, dentro de casa, que na arena social, e muito
mais de apoio recíproco no ambiente em que somos chamados a servir, que nas avenidas
rumorosas do mundo.
Em auxílio a nós mesmos, todos necessitamos cultivar compreensão e apoio
construtivo, no amparo sistemático a familiares e vizinhos, chefes e subalternos, clientes
e associados, respeito constante a vida particular dos amigos íntimos, tolerância para os
entes amados, com paciência e olvido diante de quaisquer ofensas que assaltem os
corações. Nada de aguardamos sucessos calamitosos, dores públicas e humilhações na
praça, a fim de aparecermos na posição de atores da benevolência dramatizada, apesar
de nossa obrigação de fazer o bem e esquecer o mal, seja onde for.
Aprendamos a desculpar - mas a desculpar sinceramente, de coração e memória
-, todas as alfinetadas e contratempos, aborrecimentos e desgostos, no círculo estreito
de nossas relações pessoais, exercitando-nos em bondade real para ser realmente bons.
Tão somente assim, lograremos praticar o perdão que Jesus nos ensinou. E se o Mestre
nos ensinou perdoar setenta vezes sete aos nossos inimigos, quantas vezes deveremos
perdoar aos amigos que nos entretecem a alegria de viver? Decerto que o Senhor se fez
omisso na questão porque tanto de nossos companheiros necessitam de nós, quanto nós
necessitamos deles, e, por isso mesmo, de corações entrelaçados no caminho da vida, é
imprescindível reconhecer que, entre os verdadeiros amigos, qualquer ocorrência será
motivo para aprendermos, com segurança, a abençoar e entender, amar e auxiliar.