sábado, 4 de agosto de 2012

AMOR E EROS

O amor se expressa como sentimento que se expande, irradiando
harmonia e paz, terminando por gerar plenitude e renovação íntima. Igualmente
se manifesta através das necessidades de intercâmbio afetivo, no qual os
indivíduos se completam, permutando hormônios que relaxam o corpo e
dinamizam as fontes de inspiração da alma, impulsionando para o progresso.
Sem ele, se entibiam as esperanças e deperece o objetivo existencial do
ser humano na Terra.
As grandes construções do pensamento sempre se alicerçam nas suas
variadas manifestações, concitando ao engrandecimento espiritual,
arrebatando pelos ideais de dignificação humana e fomentando tanto o
desenvolvimento intelectual como o moral.

Valioso veículo para que se perpetue a espécie, quando no intercurso
sexual, de que se faz o mais importante componente, é a força dinâmica e
indispensável para que a vida se alongue, etapa-a-etapa, ditosa e plena.
Nos outros reinos — animal e vegetal — manifesta-se como instinto no
primeiro e fator de sincronia no segundo, de alguma forma embriões da futura
conquista da evolução.
Adorna a busca com a melodia da ternura e encanta mediante a
capacidade que possui de envolvimento, sem agressão ou qualquer outro tipo
de tormento.
Sob a sua inspiração as funções sexuais se enobrecem e a sexualidade
se manifesta rica de valores sutis: um olhar de carinho, um toque de
afetividade, um abraço de calor, um beijo de intimidade, uma carícia envolvente,
uma palavra enriquecedora, um sorriso de descontração, tornando-se
veículo de manifestação da sua pujança, preparando o campo para
manifestações mais profundas e responsáveis.
Como é verdade que o instinto reprodutor realiza o seu mister
automaticamente, quando, no entanto, o amor intervém, a sensação se ergue
ao grau de emoção duradoura com todos os componentes fisiológicos, sem a
selvageria da posse, do abandono e da exaustão.
A harmonia e a satisfação de ambos os parceiros constituem o equilíbrio do
sentimento que se espraia e produz plenitude.
A libido, sob os seus impulsos, como força criadora, não produz tormento,
não exige satisfação imediata, irradiando-se, também, como vibração
envolvente, imaterial, profundamente psíquica e emocional.
Quando o sexo se impõe sem o amor, a sua passagem é rápida,
frustrante, insaciável...
Por outro lado, os mitólogos definem Eros, na conceituação antiga do
Olimpo grego, como sendo a divindade que representa o Amor, particularmente
o de natureza física.
Eros teria nascido do caos primitivo, portanto, espontaneamente, como
manifestação da vida afetiva. A partir do século 6º antes de Cristo passou a ser
representativo da Paixão, e teria tido uma origem diferente, uma gênese mais
poética, comparecendo como filho de Hermes e Afrodite, ou como descendente
de Cronos e Gê, ou de Zéfiro e Íris, ou ainda, de Afrodite e Marte... Foi objeto
de culto particular e especial em Téspias, Esparta, Samos, Atenas, merecendo
esse culto ser associado ao que se dispensava a Afrodite, Cantes, Dionísio e
Hércules. Por extensão, passou a representar o desejo sexual, a função
meramente decorrente do gozo sensualista, dos prazeres e satisfações
sexuais.
Posteniormente, os romanos identificaram-no como Cupido, filho de
Vênus, inicialmente representado como um adolescente, enquanto na Grécia
possuía a aparência de uma criança algo maliciosa, que se fazia conhecer com
ou sem asas, arco e flecha nas mãos. Foi tido como o mais poderoso dos
deuses durante muito tempo.
O importante, porém, é que, em nosso conceito pessoal, o amor
transcende os desejos sexuais, enquanto Eros, que pode ser portador de
sentimento afetivo, caracteriza-se pelos condimentos da libido, sempre direcionada
para os prazeres e satisfações imediatas da utilização do sexo.
O amor é permanente, enquanto Eros é transitório. O primeiro felicita,
proporcionando alegrias duradouras; o segundo agrada e desaparece voraz,
como chama crepitante que arde e gasta o combustível, logo se convertendo
em cinzas que se esfriam...
Eros toma conta dos sentidos e responde pelas paixões desenfreadas,
pelos conflitos da insatisfação, que levam ao crime, ao desar, ao desespero.
Tendo, por objetivo imediato e inadiável, o atendimento dos desejos mentais do
desequilíbrio sexual, é responsável pela alucinação que predomina nos grupos
sociais em desalinho.
Assomando em catadupas de posse enceguecida, não confia, envenenase
pelo ciúme, transtorna-se pela insegurança, fere e magoa, derrapando em
patologias sexuais devastadoras e perversões alucinantes.
O amor dulcifica e acalma, espera e confia. É enriquecedor, e, embora se
expresse em desejos ardentes que se extasiam na união sexual, não consome
aqueles que se lhe entregam ao abrasamento, porque se enternece e vitaliza,
contribuindo para a perfeita união.
O amor utiliza-se de Eros, sem que se lhe submeta, enquanto esse
raramente se unge do sentimento de pureza e serenidade que caracterizam o
primeiro.
Os atuais são dias de libido desenfreada, de paixão avassaladora, de
predominância dos desejos que desgovernam as mentes e aturdem os
sentimentos sob o comando de Eros.
Não obstante, o amor está sendo convidado a substituir a ilusão que o
sexo automatista produz, acalmando as ansiedades enquanto alça os seres
humanos ao planalto das aspirações mais libertadoras.