segunda-feira, 10 de setembro de 2012

DUALIDADE DO BEM E DO MAL

Um velho koan Zen-Budista narra que um homem muito avarento recebeu,
oportunamente, a visita de um mestre.
O sábio, depois de saudá-lo, perguntou-lhe: — Se eu fechar a minha mão
para sempre, não a abrindo nunca, como te parecerá?
o avaro respondeu-lhe sem titubear: — Deformada.
Muito bem, prosseguiu o interlocutor: — E se eu a abrir para sempre, como
a verás?
— Igualmente deformada — redargüiu, o anfitrião.
O homem nobre concluiu, informando-o: — Se entenderes isso, serás um
rico feliz.
Depois que se foi, o anfitrião começou a meditar e, a partir daí, passou a
repartir com os necessitados, aquilo que lhe parecia excedente, tornando-se
generoso.
Todos os opostos, afirma o antigo koan, bem e mal, ter e não ter, ganhar e

perder, eu e os outros, dividem a mente. Quando são aceitos, afastam as
pessoas da mente original, sucumbindo ao dualismo.
A sabedoria, concluiu a narração sintética, está no meio, no Zen, que é o
caminho.
A dualidade sempre esteve presente no ser humano, desde o momento em
que ele começou a pensar, desenvolvendo a capacidade de discernir. Os
opostos têm-lhe constituído desafios para a consciência, que deve eleger o que
lhe é melhor, em detrimento daquilo que lhe é pernicioso, perturbador, gerador
de conflitos.
Não poucas vezes, por imaturidade, toma decisões compulsivas e derrapa
em estados de perturbação, demarcando fronteiras e evitando atravessá-las,
assim
perdendo contato com as possibilidades existentes em ambos os lados, que
podem auxiliar na definição de rumos. Essa definição, no entanto, não pode ser
cerceadora das vivências educativas, produtoras. Devem caracterizar-se pela
eleição natural do roteiro a seguir, de maneira que nenhuma forma de tormento
pelo não experimentado passe a gerar frustração.
A experiência ensina a conquistar os valores legítimos, aqueles que
propiciam a evolução, facultando, na análise dos contrários, a opção pelo que
constitui estímulo ao crescimento, sem que gere danos para o próprio
indivíduo, para o meio onde se encontra, para outrem. Somente assim, é
possível a aquisição do comportamento ideal, propiciador de paz, porque não
traz, no seu bojo, qualquer proposta conflitiva.
Do ponto de vista ético, definem os dicionaristas, o bem é a qualidade
atribuida a ações e a obras humanas que lhes confere um caráter moral. (Esta
qualidade se anuncia através de fatores subjetivos — o sentimento de
aprovação, o sentimento de dever — que levam à busca e à definição de um
fundamento que os possa explicar.)
O mal é tudo aquilo que se apresenta negativo e de feição perniciosa, que
deixa marcas perturbadoras e afugentes.
Na sua origem, o ser não possui a consciência do bem nem do mal.
Vivendo sob a injunção do instinto, é levado a preservar a sobrevivência, a
reprodução, atuando por automatismos, que irão abrindo-lhe espaços para os
diferenciados patamares do conhecimento, do pensamento, da faculdade de
discernir.
A seleção do que deve em relação ao que não deve realizar dá-se
mediante a sensação da dor física, depois emocional, mais tarde de caráter
moral, ascendendo na escala dos valores éticos. Percebe que nem tudo quanto
lhe é lícito executar, pode fazê-lo, assim realizando o que lhe é de melhor, no
sentido de descobrir os resultados, porqüanto aquilo que lhe é facultado, não
poucas vezes fere os direitos do próximo, da vida em si mesma, quanto da sua
realidade espiritual.
Essa percepção torna-se a presença da capacidade de eleger o bem em
detrimento do mal. Faz-se a realidade livre da sombra; o avanço psicológico
sem trauma, a ausência de retentivas na retaguarda.
Embora haja o bem social, o de natureza legal, aquele que muda de
conceito conforme os valores éticos estabelecidos geográfica ou
genericamente, paira, soberano, o Bem transcendental, que o tempo não
altera, as situações políticas não modificam, as circunstâncias não confundem.
É aquele que está inscrito na consciência de todos os seres pensantes que,
não obstante, muitas vezes, anestesiem-no, permanece e se impõe
oportunamente, convidando o infrator à recomposição do equilíbrio, ao
refazimento da ação.
O mal, remanescente dos instintos agressivos, predomina enquanto a
razão deles não se liberta, sob a dominação arbitrária do ego, que elabora
interesses hedonistas, pessoais, impondo-se em detrimento de todas as
demais pessoas e circunstâncias.
O seu ferrete é tão especial que, à medida que fere quantos se lhe
acercam, termina por dilacerar aquele que se lhe entrega ao domínio,
tombando, exaurido, pelo caminho do seu falso triunfo.
O ser humano foi criado à imagem de Deus, isto é, fadado à perfeição,
superando os impositivos do trânsito evolutivo, nessa marcha inexorável a que
se encontra compelido.
Possuindo os atributos da beleza, da harmonia, da felicidade, do amor,
deve romper, a pouco e pouco, a casca que o envolve — herança do período
primário por onde tem que passar — a fim de desenvolver as aptidões
adormecidas, que lhe servem temporariamente de obstáculo a esses tesouros
imarcescíveis.
O Bem pode ser personificado no amor, enquanto o mal pode ser
apresentado como sendo-lhe a ausência.
Tudo aquilo que promove e eleva o ser, aumentando-lhe a capacidade de
viver em harmonia com a vida, prolongá-la, torná-la edificante, é expressão do
Bem. Entretanto, tudo quanto conspira contra a sua elevação, o seu
crescimento e os valores éticos já logrados pela Humanidade, é o mal.
O mal, todavia, é de duração efêmera, porque resultado de uma etapa do
processo evolutivo, enquanto o Bem é a fatalidade última reservada a todos os
indivíduos, que se não poderão furtar desse destino, mesmo quando o
posterguem por algum tempo, jamais o conseguindo definitivamente.
Eis porque o ser tem a tendência inevitável de buscar o amor, de entregarse-
lhe, de fruí-lo.
Encarcerado no egoísmo e acostumado às buscas externas, recorre aos
expedientes do prazer pessoal, em vãs tentativas de desfrutar as benesses que
dele decorrem, tombando na exaustão dos sentidos ou na frustração dos
engodos que se permite.
Oportunamente um aprendiz indagou ao seu mestre: — Dize-nos o que é o
amor.
— E o sábio, após ligeira reflexão, redargüiu com um sorriso:
— Nós somos o amor.
Esse sentimento que temos todos os seres viventes expressa o Supremo
Bem, que nos cumpre buscar, embora estejamos na faixa da libertação da
ignorância, errando, ainda praticando o mal temporário por falta da experiência
evolutiva, que nos junge às sensações, em detrimento das emoções superiores
que alcançaremos.
Há uma tendência para a experiência do Bem, face à paz e à beleza
interior que se experimenta, constituindo-se um grande desafio ao pensamento
psicológico estabelecer realmente o que é de melhor para o ser humano,
graças aos impositivos dos instintos que prometem gozo, enquanto que a sua
libertação, às vezes, dolorosa, em catarse de lágrimas, proporciona em
plenitude.
A terapia do Bem — essa eleição dos valores éticos que propiciam paz de
consciência — constitui proposta excelente para a área da saúde emocional e
psíquica, conseqüentemente, também física dos seres humanos, que não deve
ser desconsiderada.
A medida que se amplia o desenvolvimento psicológico, seu
amadurecimento, são eliminadas as distâncias entre o eu e os outros,
superando o mal pelo bem natural, suas ações de fraternidade e de
compreensão dos diferentes níveis de transição moral, compreendendo-se que
o mal que a muitos aflige, por eles mesmos buscado, transforma-se na sua
lição de vida.
Eis porque é necessária a terapia da realização edificante, produzindo
sempre em favor de si mesmo, do próximo e do meio ambiente, evitando
qualquer tenta
tiva de destruição, de perturbação, de desequilíbrio.
Por isso, não realizar o bem é fazer-se a si mesmo um grande mal.
Dificultar-se a ascensão, é forma de comprazer-se na vulgaridade, na desdita,
assumindo um comportamento masoquista, no qual se sente valorizado.
Certamente, nem todos os indivíduos conseguem de imediato uma
mudança de conduta mental, portanto, emocional, da patologia em que se
encarcera, para viver a liberdade de ser feliz. Isso exige um esforço hercúleo
que, normalmente, o paciente não envida. Acredita que a simples assistência
psicológica irá resolver-lhe os estados interiores que o agradam, quase que a
passo de mágica, transferindo para o psicoterapeuta a tarefa que lhe compete
desenvolver.
Para esse cometimento, o do reequilíbrio, a assistência especializada é
indispensável, somada à contribuição de um grupo de apoio e ao interesse dele
próprio para conseguir a meta a que se propõe.
A religião bem orientada, pelo conteúdo psicológico de que se reveste,
desempenha um papel de alta relevância em favor do equilíbrio de cada
pessoa e, por extensão, do conjunto social, no qual se encontra localizada.
A religião que se fundamenta, no entanto, na conduta científica de
comprovação dos seus ensinamentos, que documenta a realidade do Espírito
imortal e a sua transitoriedade nos acontecimentos do corpo, como é o caso do
Espiritismo, melhores condições possui para auxiliá-la na escolha do caminho a
trilhar com os próprios pés, propondo-lhe renovação interior e adesão natural
aos princípios que promovem a vida, que a dignificam, portanto, que
representam o Bem.
Por outro lado, proporciona-lhe uma conduta responsável, esclarecendo-a
que cada qual é responsável pelos atos que executa, sendo semeadora e
colhedora de resultados, cabendo-lhe sempre enfrentar os desafios de superarse,
porque toda conquista valiosa é resultado do esforço daquele que a
consegue. Nada existe que não haja sido resultado de laborioso esforço.
Ainda mais, faculta-lhe o entendimento de como funcionam as Leis da
Vida, em cuja vigência todos os seres somos participantes, sem exceção, cada
qual respondendo de acordo com o seu nível de consciência, o seu grau de
pensamento, as suas intenções intelecto-morais.
Abre, ademais, um elenco de novas informações que a capacitam para a
luta em prol da saúde, explicando-lhe que existe um intercâmbio mental e
espiritual entre as criaturas que habitam os dois planos do mundo: o espiritual
ou da energia pensante e o físico ou da condensação material.
A morte do corpo, não extinguindo o ser, apenas altera-lhe a compleição
molecular, mantendo-lhe, não obstante, os valores intrínsecos à sua
individualidade, o que faculta, muitas vezes, o intercâmbio psíquico.
Quando se trata de alguém cuja existência foi pautada em ações elevadas,
a influência é agradável, rica de saúde e de harmonia. Quando, porém, foi
negativa, inquieta ou doentia, perturbada ou insatisfeita, transmite desarmonia,
enfermidades, depressões e alucinações cruéis, que passam a constituir
psicopatologias de classificação muito complexa, na área das obsessões
espirituais e de libertação demorada, que exigem muito esforço e tenacidade
nos propósitos em favor da recuperação da saúde.
O Bem, portanto, é o grande antídoto a esse mal, como o é também para
quaisquer outros estados perturbadores e traumáticos da personalidade
humana.
Outrossim, a experiência do Bem se dará plena após o trânsito pelas
ocorrências do Mal, os insucessos, as perturbações, as reações emocionais
conflitivas, que facultam o natural selecionar dos comportamentos agradáveis,
tranqüilos, que validam o esforço de haver-se optado pelo que é saudável.
Caso contrário, a aquisição positiva não se faz total, porque será mais o resultado
de repressão aos instintos do que superação deles, graças ao que se
pode adquirir virtudes — sentimentos bons, conquistas do Bem —, no entanto,
perder-se a integridade, a naturalidade do processo de elevação. A pessoa
torna-se frustrada por não haver enfrentado as lutas convencionais, evitandoas,
ocasionando um sentimento de culpa, que é, por sua vez, uma oposição à
proposta encetada para a vida correta.
A experiência do Bem e do Mal começa na infância diante das atitudes dos
pais e dos demais familiares. Por temor a criança obedece, porém, não
compreende o que é certo e aquilo que é errado, que lhe querem incutir os
genitores, muitas vezes por imposição sem o esclarecimento correspondente
para a análise lenta e àassimilação da razão.
Se a criança não consegue entender aquilo que lhe é ministrado e exigido,
passa a aceitar a informação por medo de punição, até o momento em que se
liberta da imposição, transformando o sentimento em culpa, e temendo reagir
pelo ódio ou pelo ressentimento, ou, noutras situações, reprimindo-se, tomba
na depressão. O inconsciente, utilizando-se do mecanismo de preservação do
ego, resolve aceitar o que foi ministrado, pas
sando a insuflar a conduta reta, no entanto, em forma de máscara que oculta a
realidade reprimida.
A conquista paulatina do Bem produz equilíbrio e segurança, eliminando as
armadilhas do ego, que mais tem interesse em promover-se do que em ser
substituído pelo valor novo, inabitual no seu comportamento.
Por isso mesmo, o Bem não pode ser repressor, o que é mal, porém,
libertador de tudo quanto submete, se impõe, aflige. A sua dominação é suave,
não constritora, porque passa a ser uma diferente expressão de conduta moral
e emocional, dando prosseguimento àassimilação dos valores que foram
propostos no período infantil, e que constituem reminiscências agradáveis que
ajudam nos procedimentos dos diferentes períodos existenciais, na juventude,
na idade adulta, na velhice.
Em razão disso, torna-se mais difícil a assimilação e incorporação dos
valores do Bem em um adulto aclimatado à agressão, às lutas, nas quais
predominou o Mal, houve a sua vitória, os resultados prazerosos do ego, a
vitalização dos comportamentos esmagadores, que geraram heróis e
poderosos, mas que não escaparam das áreas dos conflitos por onde
continuam transitando.
Somente através da renovação de valores desde cedo é que o Bem
triunfará nas criaturas.
Quando adultas, o labor é mais demorado, porque terá que substituir as
constrições do ego e, através da reflexão, dos exercícios de meditação e
avaliação da conduta, substituir os hábitos enraizados por novos
comportamentos compensadores para o eu superior.
Eis porque se pode afirmar que o Bem faz muito bem, enquanto que o Mal
faz muito mal. A simples mudança, portanto, de atitude mental do indivíduo enseja-
lhe o encontro com o Bem que irá desenvolver-lhe os sentimentos
profundos da sua semelhança com Deus.