sábado, 13 de outubro de 2012

A Navalha de Ockham

É fácil escrever difícil.
Basta colocar no papel as idéias que surgem no bestunto, ainda que, não raro, desandem em destemperos mentais.
Difícil é escrever fácil.
Exige demorada e árdua elaboração para tornar a leitura elegante, atraente e objetiva, sem impor prodígios de concentração e entendimento.
Trata-se de uma gentileza que todo autor esclarecido deve ao leitor que se dispõe a examinar suas criações.
O texto que exige cuidadosa interpretação é mais charada do que literatura. Fica por conta da capacidade de quem lê, no empenho em orientar-se por labirintos tortuosos, fruto dos devaneios do autor.
Jesus dizia que a verdade está ao alcance dos simples.
Os doutos e entendidos costumam sofrer uma intoxicação intelectual que oblitera o bom senso e os leva a imaginar que tortuosidade e complexidade são sinônimos de cultura e saber.

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A propósito vale lembrar Guilherme de Occam (1285-1349), notável teólogo e filósofo inglês (nascido em Occam, nos arredores de Londres).
Ingressou bem jovem na ordem franciscana.
Estudou e lecionou na gloriosa universidade de Oxford.
Destacou-se pela obstinação com que defendeu a separação entre a Igreja e o Estado e contestou a infabilidade papal, o que lhe valeu a excomunhão.
Seria impossível, a um intelectual de sua lavra, permanecer fiel ao fantasioso dogmatismo religioso.
Inteligente e lúcido, estimava a simplicidade na exposição de suas idéias.
Complexidades ou conjecturas, apenas se absolutamente necessárias.
Adotou um princípio que ficaria conhecido como a navalha de Occam, definindo o empenho em retirar de um pensamento ou de uma tese acessórios e complicações desnecessários, louvando-se no bom senso.
Se a aplicássemos em textos herméticos e obscuros dos teólogos e filósofos que fazem a história das contradições do pensamento humano, seria uma “carnificina”.
Pouco sobraria.

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Nem sempre Occam conseguiu usar sua navalha.
Isso aconteceu particularmente em relação à existência de Deus, assunto que preferia não abordar.
Não a negava, mas considerava que, devido à transcendência do tema, seria impossível conjeturar sobre o Criador sem recorrer a argumentos complexos, de difícil entendimento.
Os Espíritos que orientaram a codificação da Doutrina Espírita ensinaram diferente.
Dotados de notável capacidade de síntese, própria da sabedoria autêntica, demonstraram que é possível passar a navalha de Occam em lucubrações complexas e reduzir a argumentação em favor da existência de Deus à sua expressão mais singela.
Isso acontece na questão número quatro, em O Livro dos Espíritos.
Pergunta Kardec:
Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?
Resposta:
Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.
Comenta Kardec:
Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pode fazer alguma coisa.
Simplíssimo!
Se o Universo é um efeito inteligente, tão superior ao nosso entendimento que seus segredos são inabordáveis, forçosamente tem um autor infinitamente inteligente – Deus.
A partir dessa idéia o difícil é provar que Deus não existe.
Teríamos que explicar o efeito sem causa, a criação sem um Criador.
Quaisquer argumentos em favor desta tese ingrata seriam facilmente eliminados pelo próprio Occam, usando a navalha do bom senso.
Livro Luzes no Caminho

  Richard Simonetti