quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O MENSAGEIRO DA ESTRADA

Mediunidade a serviço dos semelhantes!
Diz você que isso custa caro, e fala em renúncia e problemas pessoais. Mas, esquecerse-
á você dos benefícios que os dotes medianímicos trazem a todos aqueles que os
mobilizam na extensão das boas obras? Olvidará quantas vezes a empresa do bem lhe
arrebatou o coração às garras do mal? Pense nisso, meu caro missivista, e não atire fora
as suas vantagens que superam de muito os obstáculos que, porventura, lhe estorvem a
vida.
A esse respeito, conto a você, em versão nova, uma lenda antiga que corre o mundo
cristão, desde longo tempo.
***

 Certo homem, que se reencarnara a fim de educar-se em duras provas, quais sejam
enfermidades, abandono e solidão, montou a choupana que lhe serviria de casa à beira
de estrada deserta e poeirenta, a cavaleiro de fundo vale, onde uma fonte permanente
mantinha no chão seco larga faixa de verdura.
Viajores iam e vinham e, fôssem eles ocupantes de carruagens, ou simplesmente pobres
romeiros a pé, ei-los que paravam junto ao casebre, contentes e agradecidos por
encontrarem, ali, com o homem solitário, uma bênção muito rara na região: a água pura.
O ermitão, em demonstrações de bondade incessante, várias vezes, diariamente, descia
a encosta agressiva até o manancial e enchia o cântaro, regressando vereda acima, tãosó
no intuito de oferecer água cristalina aos viajantes diversos.
Na faina de auxiliar, entrou em contacto com um Espírito angélico a quem o Senhor
incumbira de velar por todos os que transitassem pela extensa rodovia, e o eremita,
profundamente emocionado e feliz, passou a chamar-lhe Anjo da Estrada.
Estabeleceu-se para logo, entre os dois, suave convívio. Nenhum dos passantes lhe via o
celestial companheiro; entretanto, para o solitário, aquele benfeitor espiritual se
transformara em presença sublime. Se cansado, eis que o Anjo lhe restaurava as
energias; se doente, recebia dele o remédio salutar. Se triste, recolhia-lhe as exortações
confortativas e, quando em dúvida sobre doenças e dificuldades naturais do cotidiano,
tomava-lhe as sugestões tocadas de amor. O Amigo do Céu descia com ele até à fonte,
tantas vezes quantas fôssem necessárias, ajudava-o a transportar o grande vaso cheio,
narrava-lhe histórias das Mansões Divinas, recobria-lhe a alma de tranqüilidade e júbilo
sereno.
O tempo rolou e trinta anos dobraram sobre aquela amizade entre duas criaturas
domiciliadas em mundos diferentes.

 A estrada era sempre uma estalagem da Natureza, albergando viajores que se
renovavam constantemente, mas o ermitão, conquanto satisfeito, mostrava agora a
cabeleira branca e os ombros caídos.
Certa feita, um homem prático, de passagem pelo lugar, em lhe enxergando a cabeça
vergada ao peso do cântaro bojudo, observou-lhe, conselheiral:
- Amigo, porque um sacrifício assim tão grande? Não seria melhor e mais justo transferir a
casa para a fonte, ao invés de buscar a fonte para casa?
O doador de água estremeceu de alegria. Como não pensara nisso antes? Da idéia à
realização mediaram poucos dias... No entanto, em carregando o velho material da velha
choca para a reentrância do vale, ei-lo que vê o amigo angélico em lágrimas copiosas...
- Anjo bom, porque choras?
E a resposta veio célere:
- Pois, então, não percebes? Concedeu-me o Senhor a tarefa de proteger as vidas de
quantos se arriscaram na estrada... Enquanto lá te achavas, oferecendo água límpida aos
que viajam com sede, tinha eu a permissão de trocar contigo as bênçãos da amizade.
Mas agora... Se preferes o menor esforço, é forçoso que eu me resigne a distância de ti,
esperando que alguém se decida a cooperar comigo, junto dos viajores que me cabe
amparar na condição de zelador do caminho!...
O eremita não hesitou. Suspendeu a mudança, tornou ao lugar primitivo, retomou a sua
venturosa paz de espírito ao pé da multidão anônima a que prestava serviço, e preferia
trabalhar e ser feliz, em companhia do mensageiro celeste. Com quem partiu para o Mais
Além, no dia em que lhe surgiu a morte do corpo.
***
Como é fácil de ajuizar e de ver, meu caro amigo, abençoe a sua possibilidade de
dessedentar os peregrinos da romagem terrestre com as águas puras de fé viva,
esclarecimento, pacificação e consolo, sem se fixar nos eventuais sacrifícios que isso lhe
custe. Você compreenderá, um dia, que vale muito mais livrar-se alguém de aflições e
tentações, junto dos Espíritos Benevolentes e Amigos, que viver à conta de nossas
próprias imperfeições das existências passadas, e que é muito melhor desencarnar
sofrendo, mas servindo ao próximo, em favor da própria libertação espiritual, que ter de
acompanhar o desgaste repelente do corpo, a pouco e pouco, em facilidade e descanso,
para afundar, de novo, no momento da morte, na corrente profunda de nossas paixões e
desequilíbrios.