sexta-feira, 6 de junho de 2014

A ESTRANHA CRISE

O mundo vem criando soluções adequadas para a generalidade das crises que o atormentam.
A carência do pão, em determinados distritos, é suprida, de imediato, pela superprodução de
outras faixas de terra.
Corrige-se a inflação, podando a despesa.
O desemprego desaparece pela improvisação de trabalho.
A epidemia é sustada pela vacina.
**
Existe, porém, uma crise estranha - e das que mais afligem os povos - francamente inacessível à
intervenção dos poderes públicos, tanto quanto aos recursos da ciência nas conquistas
modernas. Referimo-nos à crise da intolerância que, desde o travo de amargura, que sugere o
desânimo, à violência do ódio, que impele ao crime, vai minando as melhores reservas morais do
Planeta, com a destruição conseqüente de muitos dos mais belos empreendimentos humanos.
Para a liquidação do problema que assume tremendo vulto em todas as coletividades terrestres,
o remédio não se forma de quaisquer ingredientes políticos e financeiros, por ser encontrado tãosomente
na farmácia da alma, a exprimir-se no perdão puro e simples.
O perdão é o único antibiótico mental suscetível de extinguir as infecções do ressentimento no
organismo do mundo. Perdão entre dirigentes e dirigidos, sábios e ignorantes, instrutores e
aprendizes, benevolência entre o pensamento que governa e o braço que trabalha, entre a chefia
e a subalternidade.
**
Consultem-se nos foros - autênticos hospitais de relações humanas - os processos por
demandas, questões salariais, divórcios e desquites baseados na intransigência doméstica ou na
incompatibilidade de sentimentos, reclamações, indenizações e reivindicações de toda ordem, e
observe-se, para além dos tribunais de justiça, a animosidade entre pais e filhos, a luta de
classes, as greves de múltiplas procedências, as queixas de parentela, os duelos de opinião
entre a juventude e a madureza, as divergências raciais e os conflitos de guerra, e verificaremos
que, ou nos desculpamos uns aos outros, na condição de espíritos frágeis e endividados que
ainda somos quase todos, ou a nossa agressividade acabará expulsando a civilização dos
cenários terrestres.
Eis por que Jesus, há quase vinte séculos, nos exortou perdoarmos aos que nos ofendam
setenta vezes sete, ou melhor, quatrocentos e noventa vezes.
Tão-só nessa operação aritmética do Senhor, resolveremos a crise da intolerância, sempre grave
em todos os tempos. Repitamos, no entanto, que a preciosidade do perdão não se adquire nos
armazéns, por que, na essência, o perdão é uma luz que irradia, começando de nós.