DESPERDÍCIOS *****

 

Há muito desperdício no mundo, fomentando larga faixa de miséria entre

os homens.

 O que abunda em tua mesa falta em muitos lares.

 O excesso nas tuas mãos é escassez em inúmeras famílias.

 O que te sobra e atiras fora, produz ausência em outros lugares.

 O desperdício é fator expressivo de ruína na comunidade.

 O homem, desejando fugir das realidades transcendentes da vida, afogase na fantasia, engendrando as “indústrias da inutilidade”, abarrotando-se com

os acúmulos, padecendo sob o peso constritor da irresponsabilidade, em que

sucumbe por fim.

 A vida é simples nas suas exigências quase ascetas.

 Muitos cristãos distraídos, porém, ataviam-se. complicam os deveres,

sobrecarregam-se do dispensável, desperdiçam valores, tempo e oportunidade

edificante para o próprio burilamento.

*

 Desperdiçam palavras, amontoando-as em verbalismo inútil a fim de

esconderem as verdades;

 Desperdiçam tempo em repousos e férias demora dos, que anestesiam

os centros combativos de ação da e alma encarnada;

 Desperdiçam alimentos em banquetes, recepções testas extravagantes

com que disputam vaidades;

 Desperdiçam medicamentos em prateleiras empoeiradas, aguardando,

no lar, doenças que não chegarão, ou, em se apresentando, encontram-nos

ultrapassados;

 Desperdiçam trajes e agasalhos em armários fechados, que não voltarão

a usar;

 Desperdiçam moedas irrecuperáveis em jogos e abusos de todo gênero,

sem qualquer recato ou zelo;

 Desperdiçam a saúde nas volúpias do desejo e nas inquietações da

posse com sofreguidão;

 Desperdiçam a inteligência, a beleza, a cultura, a arte nos espetáculos

do absurdo e da incoerência, a fim de fazerem a viagem da recuperação do

que estragaram, em alucinada correria para lugar nenhum...

 Não se recupera a malbaratada oportunidade.

 Ninguém volta ao passado, na busca de refazê-lo, encaminhá-lo noutro

rumo.

 O desperdício alucina o extravagante e exaure o necessitado que se lhe

faz vítima.

 Há, sim, muito e incompreensível desperdício na Terra.

*

 Reparte a tua fartura com a escassez do teu próximo.

 Divide os teus recursos, tuas conquistas e vê-los-á: multiplicados em mil

mãos que se erguerão louvando e abençoando as tuas generosas mãos. 


Passarás pelo mundo queiras ou não. Os teus feitos ficarão aguardando

o teu retorno.

 Como semeares, assim recolherás.

 O que desperdiçares hoje, faltar-te-á amanhã, não o duvides.

 Sê pródigo sem ser perdulário, generoso sem ser

 Desperdiçador e o que conseguires será crédito ou débito na

contabilidade da tua vida perene. 


DIVALDO FRANCO

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