“Quando Alguém te Ferir na Face Direita, Apresenta-lhe Também a Outra”

E prossegue o divino Mestre: “Se alguém te roubar a túnica cede-lhe também a
capa! Se alguém te obrigar a andar com ele mil passos, vai com ele dois mil! Se alguém
te pede que lhe emprestes algo, não lhe voltes as costas!”
O que aos profanos totais parece covardia e absurdidade, o que aos semiprofanos
parece extraordinário heroismo e virtuosidade, é, para o verdadeiro iniciado no espírito
do Cristo, algo inteiramente natural e evidente.
Aqui atinge o Sermão da Montanha um como clímax.
Não se trata de praticar uma série de atos virtuosos externos, como parece á
primeira vista — trata-se, sim, de crear dentro de si uma atitude, um clima, uma
atmosfera permanente, a qual, de vez em quando, oportunamente, se revele em algum
desses atos externos, transitôrios. Uma vez que o “agir segue ao ser”, e natural que um

novo ser interno se manifeste num novo agir externo; mas, o principal não é esse agir, o
qual, sem o seu correspondente ser, será sempre algo sacrificial e artificial meramente
moral e não profundamente místico como é a alma do reino de Deus. O verdadeiro
Cristianismo não éapenas um sistema ético de agir virtuosamente —é um novo modo de
ser ontologicamente, uma completa e total transformação do indivíduo humano. Esse
novo “modo de ser”, certamente, supõe uma série de “atos de agir”, mas essa série de
atos, embora necessários, não são suficientes para produzir essa atitude, esse ser. Os
atos éticos são condição, mas não são causa dessa nova atitude crística. São necessários,
mas não são suficientes para crear essa “nova creatura em Cristo”, a qual, em última
análise, é um carisma, um dom da graça divina. Ninguém pode merecer, causar, a graça;
se assim fosse, ela não seria graça, que é de graça. Tudo que é merecido épequeno — o
que é de graça é grande.
O valor do homem não está naquilo que ele fez ou diz, externa e
transitoriamente — mas está naquilo que ele é, interna e permanentemente. O externo e
transitório é condição necessária, mas não é causa suficiente do interno e permanente.
Causa suficiente é só o poder ou a graça de Deus. Em última análise, a “nova creatura
em Cristo” é filtra de um novo fiat lux da onipotência creadora de Deus. Para que
esse fiat lux possa ser proferido sobre as trevas abismais do ego humano, deve
este ser receptivo, faminto, devidamente evacuado de si para poder ser
plenificado por Deus — isto é condição preliminar necessária para que a causa
divina possa agir.
Que alguém ofereça, de fato, a outra face a quem o feriu em uma, ou
ceda a capa a quem lhe roubou a túnica, é de somenos importância e depende
das circunstâncias do momento —mas que ele mantenha em si essa firme e
constante atitude de benevolência e beneficência, isto sim é importante e
decisivo. E no momento dado, essa atitude interna também se revelara em atos
externos. “O agir segue ao ser.”
Os atos externos mencionados por Jesus, no Sermão da Montanha, são
o transbordamenty natural e irresistível de uma poderosa atitude interna e
permanente; hrotam espontaneamente do tronco robusto de um novo ser, em
forma de flores e frutos naturais de um novo fazer e dizer.
Isso, porém, supõe uma total transformação interior do homem, o
cruzamento de uma fronteira invisível e decisiva, a transição irrevogável do
velho ego luciférico para o novo Eu crÍstico.
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O velho ego, antes de tudo, quer receber e ser servido — o novo Eu
quer dar e servir.
O velho ego sente-se facilmente ofendido, preterido, vulnerado por
bofetadas, roubos, exigência de serviço indébito, pedido de empréstimo de
dinheiro sem juros, por qualquer olhar ou palavra de desprezo, e, obediente à
lei escravizante de ação e reação, de causa e efeito, revida ofensas, vinga
injúrias, afirma a sua propriedade individual, acha covardja não ofender o
ofensor, e valentia pagar mal por mal —por que tudo isto? Porque o pequeno
ego, precisamente por ser pequeno e fraco, é escravo e vítima permanente
duma tirania da qual não consegue emancipar-se sobretudo porque essa
escravidão é chamada “Liberdade”. Quem chama saúde a doença não pode
ser curado; o primeiro passo para a cura é reconhecer a doença como doença.
O primeiro passo para ser libertado da escravidão do ego é reconhecer essa
escravidão como escravidão.
O Sermão da Montanha oferece ao homem a chave para abrir a sua
velha prisão e entrar na “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” — mas
depende do próprio homem dar meia volta à chave, para abrir a porta — ou
para continuar preso.
O novo Eu crístico nada sabe de ofensas, injúrias, desprezos,
propriedade individual, direitos, porque ele é todo invulnerável, livre, imune;
nenhum fator externo lhe pode fazer mal, porque não o pode fazer mau.
Em uma série de luminosas contraposições, frisa o Nazareno a derrota
do pequeno ego humano e a vitória do grande Eu divino, isto é, a total autorealização
ou cristificaçào do homem.
Quem não cruzou essa misteriosa fronteira que medeia entre o pequeno
mundo do ego e o vasto universo do Eu, ou não é capaz de praticar esses atos
de gloriosa libertação, ou quando, por exceção, consegue praticar algum deles,
logo se sente como um herói, como algum “super”, porque esse ato “virtuoso”
destoa da sua atitude habitual, e, por isto, lhe parece algo notável e
extraordinário. Enquanto o homem vê nesses atos um heroismo, uma virtude,
algo de excepcional, não creou ainda a competente atitude, não cruzou ainda a
misteriosa fronteira entre o ego luciférico e o Eu crístico; não é ainda um
verdadeiro iniciado, mas, na melhor das hipóteses, um profano de boa vontade.
Não é o simples “querer” que decide — todos os profanos de boa
vontade querem — mas é um novo “poder”. Muitos podem querer — poucos
podem poder. Para que alguém possa, não só querer, mas, também poder, é
indispensável que tenha recebido uma vida nova, que tenha renascido pelo
espírito, que tenha tido a suprema revelação do seu eterno “ser divino” — o seu
misterioso “eu e o Pai somos um”, ou, em sânscrito: tat twam asi (isto,
Brahman, és tu). Essa grande revelação da Verdade sobre si mesmo crea no
homem a força do poder, uma nova atitude permanente, um novo modo de ser.
Verdade é que todo homem, em virtude da sua natureza humana, da sua
“alma naturalmente crística”, era sempre essa “nova creatura em Cristo”, mas
não o era explicitamente, senão, apenas, implicitamente; essa “nova creatura
em Cristo” estava nele em estado latente, embrionário, meramente potencial;
estava concebida e andava como que em gestação, mais ou menos adiantada
ou atrasada, mas não havia nascido, ainda atualmente. Em todos os homens
existe o Cristo potencial — a “luz verdadeira que ilumina a todo homem que
vem a este mundo” — mas, enquanto esse Cristo potencial não passar a ser o
Cristo atual, podem esses homens querer o bem , mas não o podem realizar;
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neles está como escreve Paulo de Tarso, o “querer o bem”, mas não está o
“poder o bem”.
Essa transição do débil “querer” para o vigoroso “poder” é um carisma
inexplicável, uma graça divina que ninguém pode merecer, embora todos
possam e devam preparar o ambiente e crear um clima propício para que essa
graça venha.
Esse carisma é algo que nos “acontece” de fora, mas que o homem não
“produz” de dentro de si, do séu ego. Esse “acontecer” da graça brota das
eternas e ignotas profundezas de Deus — do Deus transcendente, que é o
Deus imanente; mas não vem das periferias superficiais do pequeno ego
consciente.
*
Quando o homem consegue cruzar essa misteriosa fronteira, do
pequeno ego humano para o grande Eu divino, então toda a vida dele se
transforma e ilumina com inefável força e claridade. Então entra ele num novo
céu e em uma nova terra. Então vive ele o seu céu aqui mesmo, aqui, agora, e
para sempre, e por toda a parte — e o seu inferno não existe mais em parte
alguma. Então nada mais o entristece, o molesta, o ofende, o perturba. Então,
está ele, definitivamente liberto pela Verdade, e essa libertação é a sua
suprema felicidade.
O que aos profanos, de má vontade, parece absurdo, o que aos
profanos, de boa vontade, parece doloroso sacrifício e virtude heróica — e para
os verdadeiros iniciados espontânea facilidade e suprema beatitude...
O Sermão da Montanha é a chave da grande e definitiva libertação do
homem. E a última palavra sacra de toda a iniciação esotérica e mística dos
candidatos à verdadeira sabedoria e experiência cósmica.
O Sermão da Montanha é um convite para a morte e para a ressurreição,
para o ocaso do ego luciférico e para a alvorada do Eu Crístico...
Aceitar esse convite é vida eterna — rejeitálo é morte eterna...
Aqui se bifurcam os caminhos da humanidade...
Aqui se digladiam, em dramático duelo, as duas maiores potências do
Universo — Lúcifer e Lógos, a magia mental do velho ego, e a sabedoria
espiritual do novo Eu...
Aqui se alarga o campo da grande tentação, em pleno deserto — entre a
política telúrica do tentador: “Eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória”
— e a sapiência cósmica do tentado: “O meu reino não é deste mundo”.
No Everest do Sermão da Montanha se vê todo o indivíduo humano
colocado na grande encruzilhada entre o “querer ser servido” do velho ego
luciférico — e o “querer servir” do novo Eu cristico...
A escolha é livre — mas as conseqüências da escolha obedecem a uma
lei inexorável...
A alternativa suprema e última é esta: VIDA — ou MORTE...
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