Notas da Vida***

 

Emmanuel

Sem conhecimento dos interessados, o psicólogo de certa organização, que se subdivide em

diversos setores comerciais, recebia consulentes no salão da recepcionista, quando um cavalheiro

bem apessoado entrou na sala, informando que desejava obter uma colocação na firma e, para

isso, exibia vários títulos de competência, ao que o amigo, que não aparentava qualquer ligação

com a casa, disse-lhe com otimismo:

- Que dizer que o senhor tem vasto conhecimento de aparelhos eletrodomésticos...

- Sim, tenho – confirmou o postulante – mas detesto o trabalho e sei que os salários atualmente

rastejam no chão...

O interlocutor acentuou, sem alardear superioridade:

- Ao que me parece, o senhor não encontrará a oportunidade que procura. Sei que a firma, no

momento, não dispõe de vagas.

Logo após retirar-se o candidato, uma jovem penetrou no recinto e comunicou ao amigo, que se

instalara na cadeira de recepção, que pretendia solicitar um lugar de balconista.

O observador, que ali estava para sondar as disposições dos candidatos, considerou sorridente:

- Decerto, a senhora possui grande experiência de contato com o público...

A moça articulou um gesto de desagrado e acrescentou:

- Experiência não me falta, entretanto, para mim é um sacrifício contatar com o público, sempre

a esnobar exigências. O balcão é intolerável, principalmente quando se sabe que o salário é de

miséria.

O companheiro, erguido a condição de recepcionista, objetou:

- É pena. Pelo que sei, a firma não está admitindo novos auxiliares. Ainda assim, a senhora

poderá voltar para informações mais seguras.

A jovem fixou um gesto de aborrecimento e saiu.

Em seguida, um homem robusto apareceu, esclarecendo que iria solicitar da casa um emprego

nas tarefas de limpeza...

O suposto chefe exprimiu-se com satisfação:

- É um prazer encontrar alguém que se mostra feliz ante a possibilidade de cooperar nas

atividades da limpeza...

O recém chegado, porém, falou com veemência:

- O senhor está enganado. Pedirei trabalho aqui não por gosto e sim por necessidade, embora

saiba os salários aqui são de fome...

O psicólogo replicou sem alterar-se:

- respeito os seus pontos de vista, no entanto, segundo suponho, a firma não dispõe de vagas,

agora. Oportunamente, o senhor verificará isso.

O candidato despediu-se.

Aproximamo-nos do observador e notamo-lo a falar para um colega presente:

- Veja você: onde a empresa que contratará um especialista que detesta o trabalho, uma jovem de

face trancada que não suporta o público e um empregado para limpeza que sente nojo do que

faz?

Registramos as nossas ilações e concluímos:

- Quem quiser a felicidade de se engajar em serviço respeitável, que procure amar a sua própria

tarefa, que saiba cultivar a paciência incansável e que aprenda a sorrir. 

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