Receita de domingo***

 

Ter na véspera o cuidado de escancarar a janela. Despertar

com a primeira luz cantando e ver dentro da moldura da janela a

mocidade do universo, límpido incêndio a debruar de vermelho

quase frio as nuvens espessas. A brisa alta, que se levanta, agitar

docemente as grinaldas das janelas fronteiras. Uma gaivota madrugadora cruzar o retângulo. Um galo desenhar na hora a parábola de seu canto. Então, dormir de novo, devagar, como se dessa

vez fosse para retornar à terra só ao som da trombeta do arcanjo.

Café e jornais devem estar à nossa espera no momento preciso no qual violentamos a ausência do sono e voltamos à tona.

Esse milagre doméstico tem de ser. Da área subir uma dissonância festiva de instrumentos de percussão—caçarolas, panelas,

frigideiras, cristais—anunciando que a química e a ternura do

almoço mais farto e saboroso não foram esquecidas. Jorre a água

do tanque e, perto deste, a galinha que vai entrar na faca saia de

seu mutismo e cacareje como em domingos de antigamente.

Também o canário belga do vizinho descobrir deslumbrado que

faz domingo.


Enquanto tomamos café, lembrar que é dia de um grande

jogo de futebol. Vestir um shorts, zanzar pela casa, lutar no chão

com o caçula, receber dele um soco que nos deixe doloridos e

orgulhosos. A mulher precisa dizer, fingindo-se muito zangada,

que estamos a fazer uma bagunça terrível e somos mais crianças

do que as crianças.

Só depois de chatear suficientemente a todos, sair em bando

familiar em direção à praia, naturalmente com a barraca mais

desbotada e desmilinguida de toda a redondeza.

Se a Aeronáutica não se dispuser esta manhã a divertir a infância com os seus mergulhos acrobáticos, torna-se indispensável

a passagem de sócios da Hípica, em corcéis ainda mais kar* do

que os próprios cavaleiros.

Comprar para a meninada tudo que o médico e o regime

doméstico desaconselham: sorvetes mil, uvas cristalizadas, pirulitos, algodão-doce, refrigerantes, balões em forma de pinguim,

macaquinhos de pano, papa-ventos. Fingir-se de distraído no

momento em que o terrível caçula, armado, aproximar-se da

barraca onde dorme o imenso alemão para desferir nas costas

gordas do tedesco uma vigorosa paulada. A pedagogia recomenda não contrariar demais as crianças.

No instante em que a meninada já comece a “encher”, a

mulher deve resolver ir cuidar do almoço e deixar-nos sós. Notar,

portanto, que as moças estão em flor, e o nosso envelhecimento

não é uma regra geral. Depois, fechar os olhos, torrar no sol até

que a pele adquira uma vida própria, esperar que os insetos da

areia nos despertem do meio sono.

A caminho de casa, é de bom alvitre encontrar, também de

calção, um amigo motorizado, que a gente não via há muito tempo. Com ele ir às ostras na Barra da Tijuca, beber chope ou

vinho branco.

O banho, o espaçado almoço, o sol transpassando o dia.

Desistir à última hora de ver o futebol, pois o nosso time não está

em jogo. Ir à casa de um amigo, recusar o uísque que este nos

oferece, dizer bobagens, brigar com os filhos dele em várias partidas de pingue-pongue.

Novamente em casa, conversar com a família. Contar uma

história meio macabra aos meninos. Enquanto estes são postos

em sossego, abrir um livro. Sentir que a noite desceu e as luzes

distantes melancolizam. Se a solidão assaltar-nos, subjugá-la; se o

sentimento de insegurança chegar, usar o telefone; se for a saudade, abrigá-la com reservas; se for a poesia, possuí-la; se for o corvo

arranhando o caixilho da janela, gritar-lhe alto e bom som: “Never more”.

Noite pesada. À luz da lâmpada, viajamos. O livro precisa

dizer-nos que o mundo está errado, que o mundo devia, mas não

é composto de domingos. Então, como uma espada, surgir da

nossa felicidade burguesa e particular uma dor viril e irritada, de

lado a lado. Para que os dias da semana entrante não nos repartam em uma existência de egoísmos.


Correio Paulistano, 04/08/1959

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