A minha filha trouxe-me o relatório de progresso da escola. As páginas estavam cheias de elogios e marcas positivas, mas no meio delas havia uma única anotação que parecia destoar.
“Como estou, mãe?”, perguntou ela, com uma seriedade inesperada para alguém tão pequena, de cabelos desalinhados e óculos escorregando no nariz. Com seu dedinho, apontou para a observação solitária do professor:
“Distraída em grandes grupos.”
Eu sorri. Aquilo não era novidade para mim. Eu já sabia. Desde cedo, a minha filha aprendeu a olhar o mundo de forma diferente, com uma atenção que poucos têm.
Depois de ressaltar todos os pontos positivos, li para ela o comentário. Ela sorriu de forma hesitante e, quase envergonhada, confessou:
“Eu olho muito em volta.”
Antes que aquela frase se tornasse peso, ajoelhei-me diante dela. Queria que as minhas palavras não fossem apenas ouvidas, mas sentidas.
Disse-lhe:
“Sim, meu amor. Você olha muito em volta.
Você viu quando Sam estava sozinho na excursão com o joelho esfolado — e foi até ele.
Você percebeu quando Banjo estava doente — e por isso o salvamos a tempo.
Você reparou no esforço silencioso da empregada — e sugeriu uma gorjeta extra.
Você notou o passo lento do avô — e ficou ao lado dele.
Você se encanta com a paisagem toda vez que atravessamos a ponte para o treino de natação.
E sabe o que isso significa? Que você tem um dom. Um presente raro. O mundo precisa de pessoas que reparam. Nunca quero que você deixe de notar.”
Ela iluminou-se com aquelas palavras, e eu entendi: o olhar atento da minha filha tem o poder de transformar vidas.
Porque, no fundo, todos nós estamos apenas esperando que alguém repare.
Que alguém veja a nossa dor.
Que alguém reconheça as nossas cicatrizes.
Que alguém perceba as nossas alegrias e conquistas silenciosas.
Quem consegue notar… é um verdadeiro presente para o mundo.

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