Um jovem cruzou a praça, parou diante de um senhor de cabelos brancos e perguntou: “O senhor se lembra de mim?”
“Receio que não”, respondeu o velho.
“Fui seu aluno.”
“E o que você faz hoje?”
“Sou professor.”
“Como eu?”
“Por sua causa.”
Os olhos do mestre acenderam-se de curiosidade. “Quando foi que eu o inspirei?”
“Foi no dia do relógio.”
E o rapaz contou:
“Um colega chegou com um relógio novo. Brilhava como se tivesse trazido um pedaço de sol no pulso. Eu quis para mim e o tirei do bolso dele, escondido. Minutos depois, ele percebeu e reclamou ao senhor. Lembro-me das suas palavras: ‘Um relógio desapareceu. Quem o encontrou, por favor, devolva.’ Fiquei em silêncio.
O senhor fechou a porta da sala e disse: ‘Todos de olhos fechados. Vou procurar, um a um, até encontrá-lo.’ A turma obedeceu. O coração me batia na garganta. Ouvi o arrastar das cadeiras, senti passos se aproximando, mãos discretas tocando bolsos. Quando chegaram ao meu, seus dedos encontraram o relógio e o retiraram sem pressa. O senhor continuou a busca por todos os outros, como se nada tivesse acontecido. Ao final, falou: ‘Podem abrir os olhos. O relógio foi encontrado.’
Ninguém soube quem havia pegado. O senhor nunca comentou, não me olhou de modo diferente, não me expôs, não me deu sermão. Aquele foi o dia mais constrangedor da minha vida, mas também o dia em que minha dignidade foi preservada. Tive vergonha suficiente para mudar. Humilhação teria me empurrado para o abismo. Entendi, sem uma palavra a mais, o que é educar: corrigir sem ferir, advertir sem esmagar.”
O jovem respirou fundo. “O senhor se lembra?”
“Lembro do relógio, do silêncio da sala e de ir bolso a bolso”, disse o mestre, com um sorriso sereno. “Mas não me lembro de você. Eu também fechei os olhos.”
Caridade também é guardar a dignidade do outro. Esta é a essência do ensino: se para corrigir você precisa humilhar, então ainda não aprendeu a ensinar.

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