Ana e Miguel eram amigos desde a faculdade. Sempre houve cumplicidade, mas nunca romance. Entre namoros fracassados, empregos que iam e vinham, encontros desastrosos, fizeram uma promessa numa madrugada regada a cerveja:
— Se chegarmos aos 40 sem ninguém, a gente casa. — disse Miguel, rindo.
— Fechado. Melhor dividir a vida com um amigo do que ficar sozinha. — respondeu Ana, erguendo o copo.
Anos se passaram. A vida os levou por caminhos diferentes, mas a amizade resistiu: aniversários, confidências, mensagens de madrugada quando o mundo parecia pesado demais.
Agora, Ana estava a três meses de fazer 40. Miguel, também. E, pela primeira vez, a promessa não parecia piada.
Numa tarde de sábado, encontraram-se para tomar café. Entre bolos e conversas, o assunto veio à tona.
— Então… tá chegando a hora. — disse ele, meio em tom de brincadeira.
— Pois é. — ela riu, mas desviou o olhar. — Você tá levando a sério?
Miguel demorou a responder.
— Acho que sim. Não por desespero. Mas porque sempre pensei que, no fim, é com você que eu consigo ser eu mesmo.
Ana ficou em silêncio, mexendo o café. Uma parte dela queria rir e dizer que era loucura. Outra parte queria aceitar sem pensar duas vezes.
— E se der errado? — perguntou ela.
— E se der certo? — respondeu Miguel.
A pausa que se seguiu foi mais intensa que qualquer declaração. Ana se deu conta de que, talvez, o amor não fosse sempre fogo de artifício. Às vezes, podia ser essa calma: alguém que sabe o quanto você gosta de açúcar no café, que esteve ao seu lado quando todos foram embora.
Ela respirou fundo.
— Tá. Vamos em frente.
Não havia beijo de cinema, nem trilha sonora. Apenas dois amigos, olhando-se com cumplicidade, conscientes de que estavam prestes a dar o passo mais estranho — e talvez mais sincero — de suas vidas.
Depois do café, Ana passou a semana inteira pensando se tinha enlouquecido. Aos 39, estava prestes a cumprir uma promessa que parecia piada de juventude. Cada vez que lembrava das palavras de Miguel — “E se der certo?” — o coração acelerava. Mas e se desse errado? Perderia o único amigo que sabia todas as suas histórias, até as vergonhosas.
Na sexta-feira, Miguel ligou:
— Falei com um cartório. A gente pode dar entrada quando quiser.
Ana quase deixou o celular cair.
— Você não tá brincando, né?
— Não. Mas também não tô te pressionando. Se você não quiser, esquece. Continuamos amigos.
Ela suspirou.
— Eu… quero pensar mais.
Nos dias seguintes, contou para a irmã. A reação foi uma gargalhada alta.
— Você vai casar com seu melhor amigo só porque fez uma promessa bêbada?
— Não é só isso. — disse Ana, ofendida. — Ele me conhece. Cuida de mim. É diferente.
— É… diferente mesmo. — a irmã arqueou as sobrancelhas.
Miguel também não escapou. Ao contar para um colega de trabalho, ouviu:
— Cara, você tá desesperado. Casar por conveniência? Vai acabar infeliz.
Mas Miguel não se abalou tanto. No fundo, ele sabia: já havia tentado amores grandiosos e todos tinham fracassado. O que restava era aquilo que sempre esteve ali, firme, discreto, sólido.
Duas semanas depois, Ana ligou.
— Miguel… vamos fazer.
O silêncio do outro lado foi curto, mas cheio de significado.
— Tem certeza?
— Não. Mas acho que nunca vou ter.
No dia do casamento civil, não houve vestido branco, nem buquê. Apenas dois amigos de terninho simples e roupa leve, assinando papéis diante de um juiz de paz que mal levantou os olhos.
Depois, foram comemorar com pizza e cerveja no mesmo bar onde fizeram a promessa vinte anos antes. Sentados lado a lado, não sabiam se riam ou choravam.
— A gente é louco. — disse Ana, mordendo a fatia de calabresa.
— Talvez. — respondeu Miguel. — Mas, se for pra enlouquecer, que seja junto.
Ana encostou a cabeça no ombro dele. E, pela primeira vez, a ideia de “casamento de conveniência” pareceu menos uma piada e mais um começo.
Os primeiros meses foram quase uma lua de mel estranha. Não havia paixão avassaladora, mas havia riso. Morar juntos era como estender as conversas de bar para todos os dias: discutir quem ia lavar a louça, dividir a cama como quem divide um sofá em maratona de série, cozinhar juntos aos domingos.
Ana se surpreendia com pequenas coisas: Miguel sempre deixava café pronto antes de sair para o trabalho, mesmo nos dias em que ela acordava mal-humorada. Ele, por sua vez, descobria que gostava de vê-la cantarolar no chuveiro, desafinada, mas feliz.
A família, no começo, torceu o nariz.
— Isso não é casamento, é um contrato de sobrevivência. — disse a mãe de Ana, desconfiada.
— Talvez seja. — respondeu a filha. — Mas funciona.
E funcionava. Até que, certa noite, depois de um dia cansativo, Miguel a encontrou chorando na cozinha, com uma taça de vinho na mão.
— O que houve?
— Não sei… — ela fungou. — Às vezes penso se a gente fez a coisa certa. Se eu não deveria ter esperado… sei lá, por alguém.
Miguel sentou ao lado dela, sério.
— Eu também pensei nisso. Mas, Ana, olha pra mim. — ele segurou sua mão. — Eu não sou “alguém” qualquer. Eu sempre estive aqui.
Ela sorriu, sem jeito.
— Você acha que um dia eu vou me apaixonar por você de verdade?
— Eu acho que já está acontecendo. — disse Miguel, calmo, como quem não tem pressa.
O silêncio foi quebrado pelo som da chaleira apitando no fogão. Eles riram juntos, e Ana pensou que talvez o amor não fosse mesmo fogo de artifício, mas brasas que se acendem devagar.
Meses depois, no aniversário de 40 anos de Ana, Miguel organizou uma festa surpresa. Quando ela chegou, viu todos os amigos reunidos, bolo, música. Na hora do parabéns, ele se aproximou e sussurrou no ouvido dela:
— Promessa cumprida. Mas agora eu quero mais do que promessa. Quero ficar com você porque eu quero, não porque a gente combinou.
Ana não respondeu de imediato. Apenas olhou para ele, e pela primeira vez não viu apenas o amigo de sempre. Viu um homem que a escolhera, e a quem ela, sem perceber, também vinha escolhendo há anos.
No fim da noite, quando todos já tinham ido embora, brindaram sozinhos.
— Aos 40 — disse ela.
— Ao começo — completou ele.
E brindaram, rindo como quem sabe que estava entrando em um novo capítulo — desta vez, escrito por escolha, não por conveniência.

Comentários
Postar um comentário