A moeda gira sob as luzes do set de "La Bamba" (1987) e Ritchie Valens (Lou Diamond Phillips) ganha o direito de entrar no avião. Trata-se de uma encenação, mas a dor que a acompanha é real. Nos bastidores, Connie Valens, a irmã do verdadeiro Ritchie, cai em prantos. Ela não vê um ator; vê o irmão que perdeu. Quando Lou tenta consolá-la, ela o abraça e soluça: "Por que Ritchie? Por que você entrou no avião?". Naquele instante, a tênue linha entre a ficção e a lembrança viva de uma tragédia se desfaz. O cinema deixa de ser representação para tornar-se um espelho partido refletindo a dor real.
Para Lou, mergulhar em Ritchie era entender que aquele voo fatídico era apenas o capítulo final de um romance trágico com o céu. A trama revelara que o jovem astro carregava o trauma de um acidente aéreo na escola, que vitimou seus colegas no pátio. Esse medo, no entanto, foi superado pela exaustão de uma turnê desumana — uma logística caótica de ônibus quebrados e estradas intermináveis, retratada no filme como o pano de fundo silencioso da decisão fatal. Até a piada macabra entre Buddy Holly e Waylon Jennings, que o roteiro incluiu fielmente, ganhava um peso terrível: não era um diálogo qualquer, mas o prenúncio da queda.
Para viver Ritchie Valens, Lou não apenas aprendeu a cantar e tocar suas músicas, como engordou 7 kg para arredondar o rosto e acabou por desposar sua própria “Donna” nos bastidores, casando-se com a assistente de produção Julie Cyphers. Já a Donna da ficção, interpretada por Danielle von Zerneck, trouxe à tela a delicadeza e a melancolia tão bem representada na canção homônima que Ritchie eterniza na cena do estúdio. Esai Morales, por sua vez, deu vida ao irmão Bob com uma entrega visceral, enquanto Rosanna DeSoto encarnava Connie Valenzuela, a mãe que sustentava o lar com fé e afeto, testemunhando a breve e luminosa ascensão do filho.
A casa que Ritchie compra para a mãe no filme ficava do outro lado da rua da casa verdadeira. Los Lobos, a banda que dava voz e alma às canções nos cinemas, era a mesma que ressuscitava "La Bamba" para uma nova geração. E no drive-in, onde Ritchie e Donna trocam seu primeiro beijo, o filme exibido ao fundo é "Um Corpo que Cai" — uma premonição inconsciente do final precipitado. Cada detalhe da produção era um fragmento de memória, uma tentativa de aproximar dois tempos que o acidente separou para sempre.
Mais do que a história de um astro do rock, "La Bamba" é o reflexo de uma saudade que o cinema tentou aplacar. Das cinzas do "Dia em que a Música Morreu", nasceu um filme que não se conforma com a pergunta que Connie fez nos bastidores. Mesmo que o avião decole e Ritchie olhe pela última vez para a terra que deixava para trás. Mesmo que todos recebam, incrédulos, a notícia amarga no rádio e o cortejo fúnebre desfile sob um céu implacável. Mesmo que Bob, despedaçado, grite de dor aos quatro ventos. A guitarra está lá, no acalanto choroso de "Sleepwalk" envolvendo o luto, mas também na energia alegre de "Come On, Let's Go". A arte não pode devolver os que se foram, mas pode garantir que suas memórias nunca se percam no silêncio.

Comentários
Postar um comentário