Sem compaixão não há caridade.
As lágrimas vertidas ao calor vívido da piedade corroem as densas cadeias da
provação.
Desterremos de nós a insensibilidade crua diante das telas de angústia que se
desenrolam em nossa estrada.
A piedade é a simpatia espontânea e desinteressada que se antepõe à antipatia
gratuita moral e material, junto daqueles que no-la despertam, sem o que se torna
infrutífera.
Quando o sofrimento alheio não nos sensibiliza, a Orientação Divina estatui
venhamos a experimentá-lo igualmente para avaliar a dor do próximo e nos predispormos a
ampará-lo.
Só a piedade consoladora traz alegria ao espírito, criando elevação e valor.
Fujamos à compaixão aparente que se manifesta em lágrimas de crocodilo, gestos e
exclamações pomposas, nos cenários artificiais do fingimento.
Mede-se a comiseração pelo devotamento e solicitude fraternais que promove.
Deve-se-lhe o despovoamento gradativo das zonas de purgação moral da Espiritualidade.
Deixa-te enternecer ante os painéis comovedores das crises de pranto, vezes e
vezes temperadas em sangue e suor; contudo, não te detenhas aí: busca dirimi-las.
Perlustra as vielas ínvias da necessidade e beneficia as almas que se agitam em
desespero, dentro da jaula do próprio corpo.
Tem dó, não apenas dos quadros gritantes de falência íntima, mas também dos
padecimentos mascarados de silêncio e de orgulho, ingenuidade e inexperiência.
Inunda de amor os corações mantidos sob o vácuo do tédio.
Protege a infância desvalida, pois os pequenos viajores da carne carecem de guias.
Favorece com a moeda e abençoa com a palavra os pedintes andrajosos somente
acariciados pelos cães que vagueiam nas ruas.
E na certeza de que a piedade sincera jamais expressa covardia a derruir o bem,
nem ridículo a excitar o riso alheio, acatemo-la como força de renovação das almas e luz
interior da Verdadeira Vida, eternizada por Deus.
Sê compassivo.
Cairbar Schutel
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