Prontos para enfrentar o mundo -***-

 

Num lindo dia, eu com uns onze anos, o professor chamou meu pai de lado e disse, com ar solene:  

— O menino está pronto. Já sabe ler, escrever, somar, subtrair, multiplicar, dividir… E semana passada resolveu o último problema. Já pode mandá-lo pra caixeiro.

Naquele tempo, resolver “o último problema” era o diploma máximo de sabedoria. O bendito problema metia medo só de olhar, mas a tabuada era a nossa varinha mágica — com ela, a gente abria qualquer porta.

O mestre, para nos iluminar, começava sempre do mesmo jeito:  

— A tonelada tem treze quintais e meio…  

E nós, em coro, como se fosse hino nacional:  

— O quintal tem quatro arrobas, a arroba trinta e dois arratéizinhos, o arratel quatro quartas, a quarta quatro onças, a onça oito oitavas, a oitava três escrúpulos e o escrúpulo vinte e quatro grãos de trigo seco e bem contado!

Aí vinha a bomba:  

— Ora, se cada formiguinha consegue carregar até o alto da torre um grão de trigo… quantas formigas são precisas pra transportar uma tonelada inteira?

Pronto. Era como se um relâmpago atravessasse a sala. A luz se fazia! Saíamos correndo, enchendo folhas e mais folhas de contas, multiplicação em cima de multiplicação, até chegar ao número cabalístico. Depois, orgulhosos que só, íamos exibir o papel ao professor.

Naquele instante, estávamos diplomados. Prontos para enfrentar o mundo e virar caixeiros, contadores ou o que a vida mandasse.

(Adaptado de crônica de Francisco Serrano, 1919)


Historia Perdida

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