Em outubro de 2007, repórteres se aglomeraram em frente a uma casa em Londres, câmeras prontas para capturar a reação triunfante de uma ganhadora do Prêmio Nobel.
Doris Lessing saiu de um táxi preto carregando sacolas plásticas com vegetais, olhou para o circo midiático e disse: "Ai, meu Deus. Não me importo nem um pouco."
Aos 88 anos, ela acabara de se tornar a pessoa mais velha a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Sua resposta? Irritação por alguém esperar que ela estivesse animada com isso.
"Eu ganhei todos os prêmios da Europa, todos eles", disse ela à multidão. "É uma sequência real."
A foto viralizou — uma senhora idosa com roupas práticas, compras nas mãos, completamente indiferente ao prêmio literário mais prestigioso do mundo.
Porque, para Doris Lessing, os elogios nunca foram o objetivo. A verdade, sim.
E a verdade lhe custou tudo. Nascida na Pérsia em 1919, Doris mudou-se para a Rodésia do Sul aos seis anos de idade, quando seus pais britânicos perseguiram o sonho de enriquecer com a agricultura colonial. O que encontraram foi isolamento, pobreza e um sistema racista tão brutal que definiria o trabalho de sua vida.
Ela cresceu vendo colonos brancos viverem confortavelmente enquanto africanos negros eram explorados, espancados e privados de sua humanidade básica.
A jovem Doris viu a mentira central do colonialismo: que a crueldade poderia ser civilizada se você simplesmente se recusasse a nomeá-la.
Aos 14 anos, ela abandonou a escola. Aos 19, desesperada para escapar, casou-se com um funcionário público chamado Frank Wisdom e teve dois filhos.
Aos 23 anos, percebeu que o casamento e a maternidade a sufocavam. Então, fez uma escolha que a assombraria para sempre: ela foi embora. Abandonou seus dois filhos com o pai deles, divorciou-se e ingressou no Partido Comunista.
Essa decisão violou todas as expectativas da maternidade. Ela escreveu sobre isso sem hesitar nos anos seguintes: a escolha impossível entre ser mãe e ser pessoa, a culpa que nunca desapareceu, a sufocante vida doméstica.
"Não há nada mais entediante para uma mulher inteligente do que passar uma quantidade infinita de tempo com crianças pequenas", disse ela mais tarde, recusando-se a suavizar a verdade mesmo décadas depois.
Em 1949, aos 30 anos, ela deixou a Rodésia rumo a Londres com um manuscrito debaixo do braço e seu filho pequeno, Peter, fruto de um segundo casamento fracassado. Ela estava quase falida e completamente determinada.
O manuscrito era "A Erva Canta" (The Grass Is Singing).
Publicado em 1950, o livro expôs a violência psicológica do racismo — a relação entre a esposa de um fazendeiro branco e uma empregada negra, o poder e a vergonha que o colonialismo tentava manter ocultos.
Os colonos brancos ficaram indignados.
O livro foi imediatamente proibido na África do Sul e na Rodésia.
Em 1956, ela foi declarada imigrante proibida. Banida. Exilada pelo crime de dizer a verdade.
Nos 25 anos seguintes, os países de sua juventude permaneceram fechados para ela.
Ela continuou escrevendo.
Em 1962, publicou O Caderno Dourado, que explodiu na cultura literária como uma bomba.
O livro contava a história de Anna Wulf, uma mulher cuja vida estava se fragmentando — como escritora, mãe, ativista política, amante.
Falava sobre menstruação. Orgasmos. Aborto. Colapso mental. Desilusão política. A exaustão absoluta de tentar ser tudo o que todos precisavam enquanto desaparecia no processo.
Ninguém havia escrito sobre a vida interior das mulheres dessa forma. Não com essa honestidade. Não com essa recusa em suavizá-la.
Críticos homens a chamavam de "amarga", "raivosa", "neurótica".
As mulheres leram o livro e se sentiram representadas pela primeira vez na vida.
O Caderno Dourado tornou-se um dos textos definidores da segunda onda do feminismo — embora a própria Lessing se irritasse com o rótulo de "escritora feminina".
Ao longo das décadas de 1960 e 70, ela escreveu prolificamente. Ficção científica. Romances políticos. Ficção experimental. Memórias.
Os críticos reclamavam que ela era política demais. Depois, experimental demais. Depois, focada demais em ficção científica.
Ela não se importava. Escrevia o que precisava ser escrito.
Enquanto isso, a proibição se mantinha. Ela foi declarada inimiga do Estado por seu ativismo antiapartheid, seu passado comunista, sua recusa em fingir que o colonialismo era algo além de roubo envolto em falsa civilidade.
Mas o exílio lhe deu clareza. De Londres, ela podia ver o sistema colonial sem os compromissos diários que a proximidade exige.
Na década de 1980, quando o apartheid começou a ruir, a proibição foi finalmente suspensa. Nessa época, Lessing já estava na casa dos 60 anos. O retorno foi agridoce — ela passou décadas escrevendo sobre lugares que não podia visitar.
Ela continuou escrevendo até os 80 anos. Nunca se suavizou.
Então chegou aquele dia de outubro de 2007.
A Academia Sueca tomou sua decisão: Doris Lessing, "aquela epistolar da experiência feminina, que com ceticismo, paixão e poder visionário submeteu uma civilização dividida ao escrutínio".
Jornalistas correram para sua casa em Londres.
Encontraram uma mulher de 88 anos saindo de um táxi, com legumes em sacolas plásticas, parecendo irritada com toda a comoção.
"Tenho 88 anos e eles não podem dar o Nobel para alguém que está morto, então acho que provavelmente pensaram que era melhor me dar agora, antes que eu morra."
A imagem tornou-se icônica: uma mulher que fora banida de países, desprezada por críticos, repetidamente informada de que sua honestidade era demais — ali, com as compras do supermercado, completamente indiferente à maior honraria literária do mundo.
Porque nunca se tratou de prêmios. Tratava-se de persistência.
De encarar verdades incômodas e registrá-las. De recusar-se a tornar a injustiça palatável ou a vida das mulheres decorativa. De escolher a verdade em vez do pertencimento.
Ela fora chamada de raivosa, amarga, difícil. Fora exilada por governos e desprezada por críticos. Fizera escolhas que a assombravam — abandonar seus filhos, priorizar seu trabalho, recusar-se a suavizar as arestas.
Ela escreveu mesmo assim. Por 60 anos, ela escreveu.
Quando Doris Lessing morreu em 2013, aos 94 anos, deixou para trás mais de 50 livros. Romances, contos, ensaios, memórias, peças de teatro. Cada um deles intransigente.
Ela provou que a rebeldia não exige grandes gestos. Às vezes, basta a recusa silenciosa em parar de escrever o que precisa ser escrito.
Ela provou que você não precisa ser agradável para ser importante. Você só precisa ser honesto.
E ali, aos 88 anos, com suas compras no colo, indiferente ao Prêmio Nobel, ela provou uma última coisa: que uma mulher que se recusa a se desculpar por suas escolhas, que escreve com paixão mesmo quando isso lhe custa tudo, que encara a maior honraria do mundo com um "Ah, pelo amor de Deus, não me importo nem um pouco" — essa mulher não é parada!
Divulgação de fatos e conhecimentos: ciências e afins
Post de Marcos Schmidt

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