Em outubro de 1992, uma jovem cantora irlandesa de cabeça raspada apareceu diante de milhões de telespectadores no Saturday Night Live, ergueu uma foto do Papa João Paulo II e a rasgou diante das câmeras.
“Lutem contra o verdadeiro inimigo”, disse.
Naquele instante, Sinéad O’Connor se tornou uma das mulheres mais odiadas dos Estados Unidos. Quase ninguém perguntou por quê.
A foto não era aleatória. Pertencera à sua mãe — uma mulher que, segundo a própria Sinéad relatou ao longo da vida, foi extremamente violenta. Ela descreveu uma infância marcada por agressões físicas, humilhações e medo. Um juiz chegou a classificar o comportamento da mãe como “extremamente bárbaro”. Para Sinéad, a dor pessoal estava profundamente ligada a estruturas maiores de silêncio e repressão na Irlanda da época.
Adolescente, após episódios de pequenos delitos e faltas escolares — que mais tarde ela associaria ao trauma — foi enviada a um centro de treinamento para meninas em Dublin, administrado por uma ordem religiosa. A instituição havia funcionado anteriormente como uma das Magdalene Laundries, locais onde mulheres consideradas “desviadas” eram internadas e forçadas ao trabalho. Embora as lavanderias já estivessem fechadas, o peso daquela história ainda pairava sobre o lugar.
Foi ali que a música se tornou salvação. Um voluntário percebeu sua voz incomum. Ela ganhou um violão. Começou a compor.
Em 1987, aos vinte anos, lançou The Lion and the Cobra. A crítica percebeu imediatamente que surgia algo singular: uma artista que misturava intensidade emocional, influências do punk e da música tradicional irlandesa, e uma presença que desafiava os padrões da indústria. Ela raspou a cabeça depois que executivos sugeriram que deixasse o cabelo crescer e adotasse uma imagem mais “convencional”.
O estrelato mundial veio em 1990 com I Do Not Want What I Haven’t Got. Sua interpretação de “Nothing Compares 2 U” tornou-se um marco da década — especialmente o videoclipe minimalista, centrado em seu rosto e nas lágrimas que escorriam sem filtro.
Ela tinha apenas 23 anos e era uma das artistas mais famosas do planeta.
Dois anos depois, veio o momento que mudaria tudo.
Ao rasgar a foto do Papa, Sinéad afirmava estar denunciando abusos cometidos por membros do clero católico e o acobertamento institucional — algo que só ganharia reconhecimento global muitos anos depois. Na época, porém, a reação foi devastadora. Emissoras boicotaram suas músicas. Shows foram cancelados. Ela foi vaiada publicamente e alvo de piadas e ataques de figuras conhecidas.
Durante anos, foi tratada como pária.
Mesmo assim, jamais se arrependeu. Em sua autobiografia, escreveu que não lamentava o gesto — via nele coerência com sua verdade.
Ao longo da vida, Sinéad falou abertamente sobre sua saúde mental. Recebeu diagnósticos como transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático complexo. Compartilhou momentos de profunda vulnerabilidade, incluindo períodos de hospitalização e crises pessoais. Em 2018, converteu-se ao Islã, adotando o nome Shuhada’ Sadaqat.
Em janeiro de 2022, enfrentou a maior dor de sua vida: a morte de seu filho Shane, aos 17 anos. A perda a abalou profundamente.
Em 26 de julho de 2023, Sinéad O’Connor foi encontrada sem vida em seu apartamento em Londres, aos 56 anos. O relatório do legista, divulgado posteriormente, apontou morte por causas naturais relacionadas a problemas respiratórios crônicos.
Após sua morte, o tom global mudou. Muitos reconheceram que ela havia denunciado abusos institucionais anos antes de o mundo estar disposto a ouvir. Líderes políticos e artistas prestaram homenagens. Multidões acompanharam seu cortejo na Irlanda.
Mas talvez seu verdadeiro legado esteja além das homenagens oficiais.
Está nas pessoas que encontraram consolo em sua música. Nos sobreviventes que se sentiram menos sozinhos ao ouvir sua voz. Nos artistas que aprenderam que autenticidade pode custar caro — mas também pode mudar narrativas.
Sinéad O’Connor foi intensa, controversa, vulnerável e corajosa. Transformou dor em arte. Escolheu falar quando o silêncio seria mais fácil.
E, para muitos, estava apenas muito à frente do seu tempo.

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