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O pai lhe deu o nome de Stanley porque queria um menino — e ela se tornou a mulher que moldou um presidente.

Stanley Ann Dunham. Até o nome já era uma forma de rejeição.

Nascida em 1942, passou a infância pedindo desculpas por aquele nome toda vez que a família se mudava — e eles se mudavam o tempo todo. Kansas. Califórnia. Texas. Washington. O pai vendia móveis e nunca conseguia ficar muito tempo no mesmo lugar. Quando Ann completou 18 anos, já tinha vivido em cinco estados diferentes.

A maioria dos adolescentes teria desejado estabilidade. Ann desejava outra coisa.

No ensino médio, em Mercer Island, no estado de Washington, os amigos diziam que ela era “intelectualmente muito mais madura” do que os outros. Chamavam-na de “a feminista original” no fim dos anos 1950 — quando essa palavra mal existia. Lia filosofia, frequentava cafés em Seattle para discutir ideias que deixavam outros jovens desconfortáveis. Não se interessava por namoros convencionais, nem por cuidar de crianças como as amigas. O caminho esperado simplesmente não a atraía.

Em 1960, o pai decidiu mudar a família para o Havaí. Ann não queria ir. Havia sido aceita na Universidade de Chicago. Mas o pai insistiu e, no dia seguinte à formatura, ela deixou Mercer Island.

Na Universidade do Havaí, matriculou-se em um curso de língua russa. Foi ali que conheceu Barack Obama Sr., o primeiro estudante africano da instituição. Ele tinha 23 anos, era carismático, brilhante intelectualmente — e vinha do Quênia. Era casado e tinha um filho em seu país de origem, detalhe que não revelou de imediato.

Casaram-se em fevereiro de 1961. Ann estava grávida de três meses. Tinha apenas 18 anos.

Os amigos ficaram chocados. Não exatamente porque ele era negro — embora o casamento interracial ainda fosse ilegal em 22 estados americanos —, mas porque Ann jamais parecera interessada em casamento ou maternidade.

Em 4 de agosto de 1961, nasceu Barack Obama.

Poucos meses depois, o casamento já estava em ruínas. Obama Sr. se formou e foi para Harvard. Ann se viu mãe solteira ainda adolescente, no Havaí, dependendo de cupons de alimentação e da ajuda dos pais.

Mesmo assim, voltou a estudar.

Conheceu outro estudante estrangeiro: Lolo Soetoro, da Indonésia. Jogava xadrez com o pai de Ann, brincava de luta com o pequeno Barack, era gentil. Casaram-se em 1967.

Aos 23 anos, Ann Dunham já havia se casado duas vezes, tinha um filho pequeno e se preparava para viver em um país que nunca tinha visto.

Muita gente chamaria isso de caos. Ann chamava de aprendizado.

Na Indonésia, ela não apenas sobreviveu — floresceu. Aprendeu o idioma, mergulhou na cultura, interessou-se profundamente pelo desenvolvimento rural, pelo microcrédito e pela vida econômica das mulheres nas comunidades locais. Concluiu a graduação em 1967, o mestrado em antropologia em 1974 — e não parou mais.

Durante duas décadas, dividiu sua vida entre o Havaí e a Indonésia. Trabalhou como consultora da USAID, desenvolveu programas de microfinanças que ajudaram milhões de pessoas a sair da pobreza, estudou ferraria, tecelagem e o trabalho feminino nas aldeias de Java.

Quando Barack tinha 10 anos, decidiu mandá-lo de volta ao Havaí para viver com os avós, acreditando que ali teria uma educação melhor. Foi uma decisão dolorosa — mas tomada com convicção.

Ann continuou trabalhando, pesquisando, insistindo.

Em 1992, aos 50 anos, depois de décadas conciliando estudo em tempo parcial, trabalho integral e maternidade, concluiu o doutorado em antropologia pela Universidade do Havaí. Sua tese, com 1.043 páginas, tratava da ferraria e das indústrias camponesas na Indonésia. Levou 20 anos para ser finalizada.

Os modelos de microfinanças que ajudou a criar ainda são usados pelo governo indonésio. Seu trabalho influenciou políticas de desenvolvimento em todo o Sudeste Asiático. Atuou em projetos no Paquistão e colaborou com a Fundação Ford, a USAID e o Banco Asiático de Desenvolvimento. Tornou-se uma das antropólogas mais respeitadas de sua área — embora pouco reconhecida nos círculos acadêmicos americanos, em parte por ser mulher e por atuar longe das universidades de prestígio.

No fim de 1994, vivendo em Jacarta, sentiu fortes dores no estômago durante um jantar. Um médico local diagnosticou indigestão. Era câncer de útero. Quando voltou aos Estados Unidos, em 1995, a doença já havia se espalhado para os ovários.

Mudou-se para o Havaí para ficar perto da mãe. Morreu em 7 de novembro de 1995, 22 dias antes de completar 53 anos.

Seu filho Barack tinha 34 anos. Dois anos depois, seria eleito para o Senado estadual de Illinois. Treze anos mais tarde, tornaria-se presidente dos Estados Unidos.

Sobre a mãe, Obama diria:

“Ela foi a figura dominante da minha formação. Os valores que me ensinou continuam sendo meu norte.”

Quais valores? Curiosidade intelectual. Coragem para atravessar fronteiras. Recusa em aceitar limites impostos. A ideia de que estabilidade não é geográfica, mas interior.

Ann Dunham viveu como quem faz apostas arriscadas: casou-se com estrangeiros, mudou-se para países desconhecidos, estudou enquanto criava filhos sozinha, escolheu aldeias indonésias em vez de cargos prestigiosos. Algumas apostas deram certo. Outras, não. Seus filhos conviveram com essas escolhas.

Mas ela provou algo que seu filho levaria ao cargo mais poderoso do mundo: não é preciso seguir o caminho esperado. É possível ser muitas coisas contraditórias ao mesmo tempo.

Mãe adolescente com doutorado. Mulher branca do Kansas mais à vontade na Indonésia. Intelectual apaixonada pelo trabalho e profundamente humana. Romântica e pragmática.

O pai queria um menino e a chamou de Stanley.

Ela se tornou a mulher que ajudou a transformar políticas de desenvolvimento e a formar um presidente.

Poucos conhecem seu nome. Conhecem o filho.

E, muito provavelmente, é exatamente assim que Ann Dunham teria desejado. Ela nunca buscou reconhecimento — buscou compreensão. De culturas, de pessoas, de possibilidades.

E ensinou isso ao filho.

Stanley Ann Dunham (1942–1995).

Mãe adolescente. Antropóloga. Feminista antes do termo se popularizar. Mulher de fronteiras abertas. Sonhadora.

A mulher que moldou um presidente ao se recusar a ser aquilo que esperavam dela.


Estudos Históricos

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