Trazia música no sangue """"

 

Detroit, 1964.

Uma rapariga de treze anos ficou colada à televisão enquanto os Beatles incendiavam o palco do Ed Sullivan Show. Enquanto as outras sonhavam em casar com um deles, Suzi Quatrocchio pensou algo que ninguém ousava pensar:

“Eu não quero um Beatle. Eu quero ser um Beatle.”

Havia apenas um problema: raparigas não tocavam rock.

Cantavam docemente. Sorriam. Ficavam quietas enquanto os homens seguravam os instrumentos.

Suzi nunca aceitou esse papel.

Trazia música no sangue — o fogo italiano do avô que atravessou o oceano até Detroit, a força húngara da mãe, Helen, e o jazz pulsante do pai, Art. Aquela casa não ensinava obediência. Ensinava ritmo.

Aos catorze anos, ela escolheu o instrumento mais pesado, mais alto, mais “proibido” de todos: o baixo.

Nada de piano delicado. Nada de violão romântico.

Ela agarrou o instrumento que fazia o chão tremer.

Com as irmãs, fundou The Pleasure Seekers — uma banda de rock só de mulheres numa época em que isso soava a ficção científica. Eram boas. Muito boas. Gravaram, fizeram digressões, mudaram para Cradle. Mas as editoras americanas repetiam sempre a mesma frase:

— “És talentosa, mas mulheres não vendem rock.”

— “Que tal cantares baladas?”

— “Mulheres não lideram bandas.”

Eles ouviam o sexo antes de ouvirem a música.

Aos 21 anos, Suzi fez algo impensável: deixou os Estados Unidos sozinha.

Na Inglaterra, o produtor Mickie Most enxergou o que todos os outros ignoraram: uma estrela a arder por dentro. Deu-lhe couro preto, atitude crua e palco aberto.

Em 1973, “Can the Can” explodiu. Número um no Reino Unido. Na Austrália. Em metade da Europa.

O mundo viu, pela primeira vez, uma mulher de metro e meio, vestida de couro dos pés à cabeça, a comandar uma banda de rock como um general em guerra.

Ela não sorria.

Ela arrasava.

Vieram mais êxitos. Mais digressões. Milhões de discos vendidos.

E, mais importante, abriu a porta.

Joan Jett colou um póster da Suzi na parede do quarto.

Chrissie Hynde percebeu que também podia fazê-lo.

Girlschool, The Runaways, L7 — todas viram nela a prova de que não era um delírio.

Enquanto isso, a América — o país que a rejeitou — mal a notava.

Mas Suzi não abrandou. Não mudou. Não pediu licença.

Hoje, aos setenta e muitos anos, continua a subir ao palco de couro, baixo na mão, a provar que limites só existem para quem os aceita.

Disseram-lhe que não podia.

Ela atravessou um oceano e mostrou que podia.

Não herdou um trono.

Construiu-o, nota a nota, até se tornar a Rainha do Rock.


Sobre literatura?

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