Inventaram-lhe os crimes mais abjetos que uma mente humana pode conceber ******

 

Inventaram-lhe os crimes mais abjetos que uma mente humana pode conceber. Disseram que havia violado a própria irmã. Atribuíram-lhe outra violência sexual. Acusaram-no de ter disparado à queima-roupa contra um miliciano e de ter zombado do cadáver. Era necessário destruir não apenas o homem, mas a sua dignidade, a sua memória, a sua alma. Precisavam de qualquer motivo — verdadeiro ou não — para levar um padre diante de um pelotão de fuzilamento.

A propaganda fez o resto. A imprensa, submissa ao aparelho nazi-fascista, batizou-o de “Don Boia”, um apelido calculado para transformar um sacerdote em monstro. O seu verdadeiro nome, Don Giuseppe Borea, deveria ser apagado. E com ele, tudo o que representava.

Mas Don Borea não era um carrasco. Era um homem profundamente humano. Sensível até à dor, emocional até ao limite, vivia há muito mergulhado numa depressão silenciosa. E ainda assim, quando a morte rondava os cárceres, era ele quem permanecia de pé. Era partigiano, sim, mas nunca deixou de ser padre. Acompanhava todos os condenados à morte — sem distinção. Fascistas incluídos. Escutava-os. Consolava-os. Rezava por eles. Fechava-lhes os olhos depois do último disparo. E quando os corpos eram deixados em pedaços, era ele quem, com as próprias mãos, os recompunha com respeito, como quem devolve humanidade àquilo que o ódio havia tentado negar.

Esse foi o seu verdadeiro crime: humanidade.

O regime nunca o suportou. Muito antes de 8 de setembro, já o considerava perigoso. Enquanto o fascismo encenava grandes manifestações públicas, Don Borea reunia pessoas na sua paróquia, falava de dignidade, de fé, de consciência. Bastava isso para ser rotulado de subversivo. Um padre que pensa é sempre uma ameaça para um regime que vive do medo.

Em 1945, veio a prisão. O julgamento foi uma encenação grotesca. Uma sentença já escrita antes mesmo de o processo começar. A farsa era tão evidente que até o advogado de defesa — um major da milícia, escolhido justamente por se esperar obediência cega — teve um momento raro de lucidez moral. Ao perceber que Don Borea estava condenado à morte antes de qualquer palavra ser dita, levantou-se e fez uma defesa verdadeira, corajosa, desesperada. Pagou caro por esse gesto: foi expulso do partido e condenado ao isolamento. Num sistema injusto, até a dignidade é punida.

No 9 de fevereiro de 1945, Don Giuseppe Borea foi conduzido ao fuzilamento. Recusou a venda nos olhos. Recusou a cadeira. Não implorou. Não amaldiçoou. Perdoou. E, diante dos seus carrascos, pronunciou palavras que ainda hoje ecoam como um golpe contra a barbárie:

> “Ofereço a minha vida pela paz e pela grandeza da Pátria.

Viva Jesus, Viva Maria, Viva a Itália.”

Temeram-no até depois da morte. Para evitar que se tornasse símbolo, lançaram o seu corpo numa vala comum, como se a terra pudesse engolir a verdade. Mas não conseguiram. Porque há mortes que não enterram: revelam.

Recordá-lo não é apenas um ato de memória, é um dever moral. Don Giuseppe Borea foi um patriota, um mártir, um homem que pagou com a vida por ter escolhido a compaixão num tempo de ódio. Um dos italianos graças aos quais a Itália foi libertada — não apenas militarmente, mas moralmente.

A ele, e a todos os que resistiram com a própria consciência, devemos mais do que gratidão. Devemos lembrança eterna.


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