"Onde os Fracos Não Têm Vez" ******

 

Quando Javier Bardem leu o roteiro do filme "Onde os Fracos Não Têm Vez" pela primeira vez, ele riu. Não porque fosse engraçado, mas porque não podia acreditar no que estavam pedindo dele.

"Eu não dirijo, não suporto violência e meu inglês é péssimo. Por que vocês querem que eu faça isso?", disse ele.

Os irmãos Coen apenas sorriram.

"Porque você nos assusta", responderam.

E eles estavam certos. O que Bardem criou não era apenas um vilão, mas algo mais frio, antigo, quase sobrenatural. Anton Chigurh não agia como um assassino, ele era inevitabilidade. No set, a calma de Bardem deixava todos aterrorizados. Ele mal piscava, mal respirava. Movia-se como a própria gravidade. Um membro da equipe disse mais tarde: "Parecia que a própria morte nos visitou por um dia".

Mas o caminho para esse personagem quase quebrou o ator. Bardem passou semanas sozinho, trancado em um motel no Texas, sem falar com ninguém.

"Eu precisava matar tudo que era humano em mim", confessou ele. "Empatia, humor, calor, tudo. Eu precisava de silêncio e escuridão".

Ele ensaiava suas falas sem emoção, sem entonação, até que sua voz soasse como algo não totalmente humano.

"Eu queria que ele fosse um eco da violência, algo que não se pode entender, mas pode-se sentir".

Quando ele colocou aquela peruca estranha e pegou a arma de parafuso, até os Coen sentiram um arrepio.

"Ele desapareceu", sussurrou Ethan Coen.

Durante uma cena, um ator local, que não sabia quem estava diante dele, fugiu apavorado do set, pensando que um verdadeiro assassino havia entrado.

Fora das câmeras, Bardem sentia que Chigurh não o deixava.

"Anton nunca foi embora", ele admitiu mais tarde. "Eu acordava à noite sentindo como se ele estivesse parado no canto, olhando para mim".

Antes das filmagens, ele se olhava no espelho e sussurrava:

"Não pisque. Não respire. Você é algo com o qual não se pode negociar".

Após o lançamento do filme, o público ficou chocado e assustado. Os críticos chamaram Chigurh de "o vilão mais gelado do cinema moderno". Mas Bardem odiava essa palavra.

"Ele não é um vilão", dizia ele. "Ele é o destino. Ele é o que acontece quando o caos vence".

Quando ele recebeu o Oscar, ele não sorriu.

"Interpretá-lo", confessou Bardem, "significou permitir que a morte habitasse em mim. Isso não passa sem deixar marcas".

E mesmo agora, quando as pessoas lhe dizem o quanto Anton Chigurh era assustador, ele apenas acena silenciosamente e diz:

"Ele também me assustou".

Porque por trás da moeda jogada, do olhar calmo e do silêncio que seguia cada tiro, havia um homem que sacrificou sua própria paz para nos mostrar como é o mal puro.

E talvez seja por isso que não podemos esquecê-lo: Javier Bardem não apenas interpretou a escuridão, ele abriu a porta e a deixou entrar.


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