Acredita que um simples pedaço de papel pode alterar três destinos para sempre? Beatriz, uma mulher de 41 anos com olhos tristes, mas incrivelmente bonitos, colou mais um panfleto num poste de iluminação coberto de neve. Afastou-se lentamente, encolhendo-se contra o vento cortante, enquanto a sua silhueta frágil se dissolvia no turbilhão de flocos brancos. Foi então que, sob a luz fraca do poste, um cão enorme e esquelético de raça indefinida parou.
Tremendo devido ao frio glacial e à fome prolongada, tinha cristais de gelo presos às pestanas. Erguendo-se com dificuldade nas patas traseiras, o cão cheirou o papel: ""Alma solitária procura um amigo verdadeiro."" Claro que ele não sabia ler, mas o papel cheirava a ela — a calor e esperança. ""Estão à minha procura"", pareceu sussurrar-lhe o coração canino. ""Eu sou esse amigo verdadeiro..."". Reunindo as suas últimas forças, arrancou o papel com os dentes e seguiu as pegadas dela, já quase apagadas pela neve.
O frio dia de inverno transformou-se numa noite de gelo implacável. A neve queimava-lhe as patas feridas, e o seu pelo ralo cobriu-se de uma crosta de gelo. O cão caía, voltava a levantar-se e continuava teimosamente em frente. Quando as forças o abandonaram definitivamente junto a um alto portão de ferro, simplesmente desabou num monte de neve. Atrás daquele portão, Beatriz não conseguia dormir, atormentada por um estranho pressentimento. Saiu para o pátio apenas com um roupão leve, sem sentir o gelo. De repente, o monte de neve ao seu lado mexeu-se. De debaixo da neve surgiu um focinho congelado — nos dentes segurava firmemente o panfleto amarrotado, e nos seus olhos brilhava uma devoção transcendental...
Cuidadosamente, Beatriz levou o animal congelado para dentro de casa e, com a voz a tremer, ligou para um veterinário. Tiago, um médico de 45 anos — sério, exausto, mas com um coração de ouro — chegou pouco depois. Salvou o cão, colocou-lhe a soro e, como não tinha mais urgências, aceitou uma chávena de chá com biscoitos caseiros. Começaram a conversar. Tiago confessou que era solteiro: as ex-namoradas não compreendiam porque preferia ele sair a meio da noite para salvar um gato atropelado em vez de ir para discotecas. Queriam joias, não a gratidão nos olhos de um animal resgatado. Beatriz ouvia, e nos seus olhos acendeu-se uma luz quente.
— Tem muitos doentes na clínica agora? — perguntou ela.
— Sim, durante a época festiva está sempre cheio. Daqui a uma hora tenho de voltar para mais tratamentos...
— Posso ir consigo? Eu sei ajudar! — disse Beatriz, com doçura mas com firmeza.
Um ano depois. Numa pequena e acolhedora casa que cheira sempre a biscoitos acabados de fazer, vive uma família feliz. E ao lado deles, no tapete, dorme um cão lindo e bem tratado — o seu amigo mais fiel. 🐾

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