Ela passou 48 anos decifrando os rabiscos monstruosos do marido gênio *****

 

Ela passou 48 anos decifrando os rabiscos monstruosos do marido gênio, mas uma noite ele fugiu deixando-lhe apenas uma lupa e um diário cruel

Você já amou alguém tanto que lhe deu sua juventude, suas mãos, seu ventre e até seus olhos? Bem, isso fez Sofia Behrs. Mas o amor, meu povo, às vezes é um cão que ladra dos dois lados.

Eram os anos do czar, do frio que descasca as orelhas em Moscovo e dos samovares a fumar nas mansões dos condes. Sofia tinha apenas 18 primaveras quando se casou com Lev Tolstói, o escritor mais famoso da Rússia, um senhor 34 anos mais velho que ela, barba de profeta e cara de poucos amigos. Todos o admiravam. Mas ninguém, absolutamente ninguém, conseguia ler a letra dele.

Aí estava o detalhe.

Os editores de São Petersburgo sofriam ataques de nervos sempre que recebiam um original de Tolstói. Palavras riscadas, frases escritas ao contrário, anotações nas margens que pareciam pernas de mosca bêbadas. Um verdadeiro hieróglifo eslavo. E então surgiu Sofia. Com seu avental de linho manchado de tinta preta, uma lupa de aumento que tinha pertencido ao seu avô e um chá que sempre arrefeceva antes que ela pudesse beber, a garota sentava-se à mesa e fazia magia.

Mas não qualquer magia. Ela copiava. Página após página, noite após noite. Enquanto Lev fumava cachimbo e falava da imortalidade da alma, Sofia decifrava rabiscos que fariam um calígrafo chinês chorar. Houve momentos em que precisou da lupa para entender uma nota à margem que dizia: "Os generais russos não entendiam nada, mas a neve sim". E ela, com paciência de freira, moldava o que depois seria Guerra e Paz.

Mas espera, isto não acaba aí.

Sofia não copiava apenas. Também paria. Deu à luz 13 filhos. Treze, cara. Como se ter um gênio em casa fosse pouco, sua barriga era uma fábrica de pequenos Tolstói. Oito sobreviveram. Os outros cinco saíram como flocos de neve na primavera, sem fazer barulho, mas deixando um vazio tão gelado que às vezes a jovem acordava abraçando as roupas dos que já não estavam.

E o Lev? Escrevendo. Sempre escrevendo. Sobre a morte, sobre o perdão, sobre a ressurreição. Uma noite, Sofia enterrou o filho mais novo e depois foi para a cozinha copiar o capítulo 14 de Anna Karenina. Tinha os olhos inchados de chorar e a mão direita tremendo. Lev nem olhou para cima.

— Como você pode continuar escrevendo enquanto eu enterro nosso filho? — reclamou-o.

E ele, com essa certeza que só os homens que nunca carregaram um caixão pequeno, respondeu:

—Porque se eu não escrever, sua morte não terá nenhum significado.

Naquela noite, Sofia quis partir-lhe a lupa na cabeça. Mas não o fez. Em vez disso, pegou na caneta e continuou a copiar. Porque dentro dela havia uma certeza feroz: sem a sua ordem, esse homem se perderia no seu próprio caos. E seus filhos mortos mereciam viver em cada página que ela salvasse do esquecimento.

Mas isso não é tudo, amigo. Sofia também foi fotógrafa. Uma das primeiras da Rússia. Aprendeu sozinha, com uma câmera de placas de vidro que o pai lhe deu. Fechava-se num quarto escuro cheio de frascos de revelador e pendurava os negativos como se fossem meias. E assim nos presenteou com as fotos que hoje todos conhecemos de Tolstói: escrevendo de camisa de noite, arando o campo como um mujik, tomando banho no rio com as crianças escaladas nos ombros.

- Pare de me concentrar, mulher - grunha ele.

— Algum dia, quando você não estiver, o mundo vai querer saber como você mexia as mãos quando pensa — respondia ela.

Clique. O obturador selou o momento para sempre.

E então, após 48 anos de casamento, 13 partos, 8 filhos vivos, milhares de páginas copiadas, centenas de fotos reveladas, lágrimas, tinta, lupa e silêncios... aconteceu o inevitável.

Tolstói, aos 82 anos, ficou mais louco que uma cabra no telhado. Queria doar tudo, viver como um monge descalço, renunciar aos direitos autorais. Sofia, que tinha administrado a fortuna, que tinha negociado com editores de Paris, que tinha protegido os netos da fome, disse que não.

— Se você der tudo, Lev, nossos filhos comerão ar e louvores.

— O dinheiro é o demônio! — trocou ele. E você é sua criada!

A luta foi monumental. Portas batidas, pratos partidos, crianças correndo para se esconder. Sofia fugiu para o quarto escuro e revelou uma foto do Lev quando eles ainda se olhavam com ternura. A imagem ficou desfocada porque suas lágrimas tinham manchado a lente.

Mas a coisa mais cruel estava para vir.

Uma noite, enquanto ela dormia, Tolstói fugiu de casa. Ele não deixou uma carta. Apenas um diário íntimo abandonado na mesa de carvalho. Sofia acordou de madrugada, sentiu o frio da cama vazia e soube. Com as mãos trêmulas, pegou na lupa — a mesma com a qual tinha decifrado Guerra e Paz — e começou a ler.

E então, as palavras destruíram-na.

Seu marido, seu génio, o homem por quem tinha dado tudo, tinha escrito: “Sofia aprisionou-me numa jaula de veludo. Ela é uma mulher mesquinha, obcecada por dinheiro e controle. Arruinou minha vida.”

Sofia deixou cair a lupa. Pela primeira vez em 48 anos, ele não copiou nada. Não corrigiu nada. Só levou as mãos na boca para não gritar, enquanto as lágrimas caíam no papel e manchavam as acusações do marido.

— Depois de tudo o que eu fiz... — sussurrou no vazio. Depois de te dar minha juventude, minhas mãos, meus filhos mortos... É isso que você pensa de mim?

E aí, caro leitor, é onde a história fica mais negra do que a tinta de um impressor. Porque Sofia ainda não sabe que dez dias depois, Tolstói morrerá sozinho numa estação de trem, com pneumonia e sem ela ao seu lado. E ela, quando chegar, não poderá mais pedir explicações.


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