Quando eu tinha vinte e três anos, decidi finalmente operar o joelho esquerdo. Desde os quinze, depois de uma queda feia jogando futebol no colégio, eu sentia dores que iam e vinham. Meus pais vinham insistindo há tempos para eu resolver aquilo de vez, antes que piorasse.
Meu pai tinha um plano de saúde bom através da empresa onde trabalhava, então consegui marcar com um ortopedista muito bem recomendado. Conversamos, ele pediu exames, marcamos a cirurgia. Tudo certo, tudo combinado.
Mas aí começaram aqueles avisos dos amigos espirituais. Eu sentia uma inquietação, uma voz interna dizendo: "Não vai ser ele. Não será esse médico." Fiquei preocupado, achando que algo terrível ia acontecer. Será que eu ia morrer na mesa? Será que tinha algum risco que ninguém estava vendo?
Não era nada disso.
Uma semana antes da cirurgia, o médico sofreu um acidente de moto. Nada grave com ele, graças a Deus, mas fraturou o punho direito. Óbvio que não poderia operar ninguém. E eu ali, com tudo agendado, exames prontos, licença do trabalho tirada, e sem médico.
Fui até o hospital, expliquei a situação, e pedi para falar com alguém da equipe de ortopedia. A recepcionista disse que todos estavam ocupados, mas eu insisti. Sentei ali e falei que esperaria o tempo que fosse necessário.
Comecei a caminhar pelo corredor, observando as portas dos consultórios. Cada uma tinha uma placa com o nome de um médico diferente. E então, quando passei em frente a uma sala no final do corredor, senti aquela certeza que não vem da cabeça, vem de outro lugar. Um amigo espiritual, invisível mas presente, apontou para aquela porta e disse baixinho no meu íntimo: "Esse aqui. Ele tem um coração generoso. A bondade dele é a proteção que você precisa."
Bati na porta. Entrei. O médico estava mexendo em papéis, levantou os olhos surpreso.
"Boa tarde, meu nome é Rafael, meu pai trabalha na metalúrgica São Jorge, e o senhor vai me operar o joelho."
Ele me olhou como se eu tivesse caído de paraquedas ali dentro.
"Rapaz, você está bem? Eu nem te conheço."
"Eu sei, doutor. Mas está tudo pronto para o senhor me operar. Meu médico fraturou o punho, e eu preciso de alguém. O senhor acredita em Deus?"
Ele deu uma risada curta, meio sem jeito.
"Olha, eu sou ateu. Mas tenho respeito por quem acredita."
Respirei aliviado. Pelo menos ele não me expulsou dali.
"Não tem problema, doutor. Eu acredito por nós dois."
Ele ficou me olhando por uns segundos, depois pediu para ver meus exames. Avaliou tudo, fez algumas perguntas, e no fim concordou em assumir o caso. Duas semanas depois, eu estava na sala de cirurgia.
Quando acordei da anestesia, tudo tinha corrido bem. Fiquei com a perna imobilizada, voltei algumas vezes para acompanhamento. Na consulta de retirada dos pontos, antes de ele mexer em qualquer coisa, eu disse:
"Doutor, não importa o resultado. Se tivesse que fazer de novo, faria com o senhor."
Ele sorriu de um jeito diferente, meio emocionado, e começou a retirar a bandagem. Examinou, mediu a amplitude de movimento, fez uns testes. Ficou quieto por um tempo. Depois me olhou sério.
"Sabe, Rafael, quando eu abri seu joelho, vi uma lesão antiga na cartilagem que deveria ter te deixado praticamente sem conseguir caminhar. Não faz sentido você ter andado todos esses anos com aquilo daquele jeito."
Fiquei calado, só ouvindo.
Ele hesitou, como quem não sabe se deve continuar. Então perguntou:
"Na sua religião, vocês fazem alguma coisa assim?" E fez um gesto com as mãos, como se estivesse passando algo sobre o corpo de alguém.
"Sim, doutor. A gente chama de passe."
Ele respirou fundo.
"Olha, eu não acredito nessas coisas. Mas vou te contar uma coisa que aconteceu. Quando entrei na sala de cirurgia, olhei para você já anestesiado ali na maca, e pensei: 'Eu não acredito que você existe, Deus. Mas por esse rapaz que acredita, deixa dar tudo certo.' Foi só um pensamento, sabe? Nem oração foi."
Ele ficou quieto de novo. Depois continuou, e a voz dele estava diferente.
"Quando comecei a operar e olhei com atenção para o joelho, vi uma coisa que nunca tinha visto. Tinha tipo... não sei como explicar... era como se tivesse várias mãos ao redor da mesa, ao longo do seu corpo. Não eram mãos de verdade, mas eu via. Comecei a suar frio. Meu assistente perguntou se eu estava passando mal. Eu disse que não, e continuei."
Fiquei arrepiado ouvindo aquilo.
"No fim deu tudo certo. Mais certo do que eu esperava, inclusive. E desde aquele dia, eu fico pensando... talvez exista alguma coisa que a gente não entende. Não sei se é Deus, se são espíritos, sei lá. Mas tem algo."
A partir dali, toda vez que eu voltava para consulta, ele me perguntava se eu tinha algum livro para indicar. Comecei a levar uns livros do Chico Xavier, textos sobre espiritismo. Ele lia tudo, fazia perguntas, nunca disse que virou espírita, mas abriu o coração para o mistério.
Anos depois, soube que ele tinha falecido. Infarto súbito, bem jovem ainda, na porta do próprio hospital onde trabalhava. Fiquei triste, mas também grato. Porque ele me ensinou que a generosidade de aceitar o que não se compreende, sem precisar acreditar cegamente, já é uma forma de fé.
E essa abertura de coração, essa humildade diante do desconhecido, é o que permite que os mentores espirituais trabalhem através das mãos de quem cura.

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