Passa o dia e a noite comigo, e possuirás a origem de todos os poemas *****

 

Passa o dia e a noite comigo, e possuirás a origem de todos os poemas, possuirás o bem da terra e do sol, (há milhões de sóis sobrando).

Não mais tomarás coisas de segunda ou terceira mão, nem olharás pelos olhos dos mortos, nem te nutrirás de espectros em livros.

Também não olharás pelos meus olhos, nem tomarás coisas de mim. Ouvirás todos os lados e os filtrarás em ti mesmo.

Ouvi o que os faladores falavam, o discurso sobre o início e o fim, mas não falo do início, nem do fim.

Nunca houve tanta gênese como agora, nem tanta juventude ou velhice como agora, e nunca haverá tanta perfeição quanto agora, nem tanto céu ou inferno como agora.

Ímpeto e ímpeto e ímpeto, sempre o fecundante ímpeto do mundo. Da penumbra, opostos iguais avançam, sempre substância e aumento, sempre sexo, sempre um tecer de identidade, sempre distinção, geração de vida sempre.

Rebuscar é inútil, cultos e incultos sentem que é assim. Certos como a mais certa certeza, prumo na vertical, bem escorados, seguros nas vigas, encorpados como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos, eu e este mistério aqui nos postamos.

Clara e suave é minha alma, e claro e suave é tudo que não é minha alma. Falta um, faltam ambos, e o não-visto é provado pelo visto, até que este se torne não-visto e receba prova por sua vez.

Trecho do poema Canção de Mim Mesmo, 2 e 3, do livro Folhas de Relva de Walt Whitman.


Mi Freitas

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