Ela tinha cinco anos quando ouviu na escola uma frase que parecia inocente:
“Todos os homens são mortais”.
E sentiu alívio.
Correu para casa, abraçou a mãe e disse, feliz, que ela nunca morreria. Se os mortais eram os homens, então sua mãe, por ser mulher, estava fora dessa condenação.
A resposta a deixou destruída.
A mãe explicou que não, que nessa frase as mulheres também estavam incluídas. Que “homens” servia para nomear a todos. E ali surgiu a ferida.
Porque, quando perguntou se então “todas as mulheres” também incluía os homens, a resposta foi não.
E, de repente, ela entendeu algo que ia muito além de uma lição escolar.
Entendeu que a linguagem não apenas nomeia. Também organiza. Também hierarquiza. Também decide quem aparece e quem fica aprisionado dentro da palavra do outro.
Por isso essa cena de infância escrita por Cristina Peri Rossi continua impactando com tanta força.
Porque não fala apenas de gramática.
Fala do instante em que uma menina descobre que até as palavras podem ensinar desigualdade sem levantar a voz.

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