Chamava-se Nadia Murad. ¨¨¨¨

 

Aos 21 anos, foi arrancada de Kocho e levada para Mosul com outras mulheres yazidis. Aos 22 anos, se pronunciou perante o Conselho de Segurança da ONU. Aos 25 anos, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Entre essas datas, transformou uma história que eles queriam enterrar em um teste para o mundo.

Chamava-se Nadia Murad.

Nasceu em Kocho, uma aldeia jazidi do distrito de Sinjar, no norte do Iraque.

Antes do mundo saber o nome dela, Nadia sonhava com uma vida simples.

Terminando a escola.

Ficar perto da sua família.

Abrir um salão de beleza.

Não imaginava as Nações Unidas. Não imaginava Oslo. Não imaginava que um dia homens de fato ouviriam sua história em silêncio.

Em 3 de agosto de 2014, o Estado Islâmico lançou sua ofensiva contra os yazidis em torno de Sinjar.

No dia 15 de agosto, os habitantes de Kocho foram reunidos na escola da aldeia.

Os homens foram separados das mulheres e crianças.

Seis irmãos da Nadia foram mortos. A mãe dele também foi assassinada. Famílias inteiras foram destruídas em poucas horas.

Depois levaram as mulheres e as crianças.

Mossul.

Cativeiro.

Mercado humano.

Ninguém diria mais tarde que o Estado Islâmico não queria apenas matar os yazidis. Queria destruir a sua identidade.

Eu tinha 21 anos.

Ela esteve presa durante cerca de três meses. Ela foi comprada, revendida, transferida, humilhada, tratada como um objeto por homens que queriam tirar-lhe o nome.

Mas em novembro de 2014, uma porta ficou aberta.

Nadia saiu.

Ele andou pelas ruas de Mosul sem saber se o minuto seguinte seria o último. Uma família muçulmana aceitou escondê-la e ajudou-a a sair do território controlado pelo Estado Islâmico.

Chegou a um acampamento de refugiados.

Depois para a Alemanha.

Ela estava viva.

Mas ele recusou-se a ficar calado.

Em 16 de dezembro de 2015, Nadia Murad se apresentou ao Conselho de Segurança da ONU.

Não era uma sobrevivente que vinha pedir pena.

Era uma testemunha que vinha exigir justiça.

Disse que o Estado Islâmico tinha transformado as mulheres yazidis em despojos de guerra e mercadoria.

Disse que esses crimes faziam parte de uma política organizada.

Ele disse que o Estado Islâmico veio com um único objetivo: destruir a identidade jazidi.

Naquela sala, a sua história já não era um rumor de guerra.

Se convertía en un expediente.

Uma acusação.

Uma verdade impossível de desviar.

Em 2016, Nadia foi nomeada embaixadora da boa vontade da ONU para a dignidade dos sobreviventes do tráfico humano.

E continuou.

Outra vez.

Outra vez.

Outra vez.

Falou pelas mulheres que ainda estavam presas. Pelas crianças desaparecidas. Pelas cidades destruídas. Às famílias que esperavam em frente a valas comuns e casas vazias.

Fundou a Iniciativa da Nadia para ajudar a reconstruir as comunidades afetadas, apoiar os sobreviventes e trazer vida à região de Sinjar.

Escolas.

Salud.

Justicia.

Volto.

Em 2018, o Comitê Nobel concedeu-lhe o Prêmio Nobel da Paz, juntamente com o Dr. Denis Mukwege, pelos seus esforços contra o uso da violência sexual como arma de guerra.

Nadia foi a primeira iraquiana a receber esse prêmio.

Mas em Oslo não transformou essa recompensa em uma vitória pessoal.

Lembrou dos mortos.

Lembrou-se dos cativos.

Lembrou que o reconhecimento não basta quando a justiça não chega.

No seu discurso do Nobel, ele disse que o único prêmio capaz de devolver a dignidade era a justiça e o julgamento dos criminosos.

Isso é Nadia Murad.

Não apenas uma sobrevivente.

Não apenas uma vítima.

Uma mulher que o Estado Islâmico queria reduzir ao silêncio e que obrigou o mundo a ouvir.

Em Kocho tiraram-lhe a família, a casa, a segurança.

Mas não conseguiram tirar-lhe a voz.

E essa voz tornou-se mais perigosa para eles do que todas as armas.

A verdade não conserta tudo.

Mas impede que os carrascos durmam tranquilos.

E às vezes, uma mulher que perdeu tudo se torna a memória que ninguém pode matar.


Fonte: Prêmio Nobel (“Discurso do Prêmio Nobel de Nadia Murad”, 10 de dezembro de 2018)


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