Lee Marvin ganhou um Óscar e decidiu dividi-lo com um cavalo. ---

 

Lee Marvin ganhou um Óscar e decidiu dividi-lo com um cavalo.
Em 1966, ao receber o prêmio de Melhor Ator por Cat Ballou, olhou para o público de Hollywood e disse uma frase que parecia uma piada: uma parte desse reconhecimento pertencia a um cavalo no Nevada. A sala riu, mas o Marvin não disse isso só para parecer bom.
No filme, seu personagem Kid Shelleen era um pistoleiro vindo a menos, bêbado, desastrado e quase derrotado antes de disparar. Ao seu lado estava Smoky, o cavalo que cambaleava, cruzava as patas e acompanhava cada gesto com uma precisão cômica tão perfeita que parecia entender a cena melhor do que muitos atores. Marvin sabia que boa parte da magia não estava só nele, mas naquele animal que ajudou a transformar o personagem em lenda.
Mas por trás daquele riso havia um homem muito mais complexo.
Antes de Hollywood, Lee Marvin tinha sido fuzileiro na Segunda Guerra Mundial. Em Saipan foi gravemente ferido e passou meses em hospitais militares. Muitos dos seus colegas não voltaram. Ele voltou, mas com marcas físicas e memórias que o acompanharam durante toda a sua vida.
Quando anos mais tarde lhe perguntavam de onde vinha o seu comportamento, não falava de grandes escolas nem de técnicas refinadas. Dizia que tinha aprendido em combate, tentando fingir que não tinha medo quando na verdade estava aterrorizado.
Talvez seja por isso que as suas personagens tinham essa dureza tão estranha. Eles não pareciam homens inventados para a tela. Pareciam sobreviventes. Mesmo quando fazia comédia, como em Cat Ballou, havia algo quebrado e humano debaixo do absurdo.
Lee Marvin não se agarrou muito aos símbolos de fama. Foi ator, vencedor do Óscar, estrela de cinema e até atingiu o número um no Reino Unido com Wand’rin’ Star, uma canção que ele próprio parecia não levar muito a sério. Mas no final, ele escolheu descansar no Cemitério Nacional de Arlington.
Na sua lápide não aparece o nome dos seus filmes nem o brilho dos seus prêmios.
Apenas o seu nome, posto e serviço como fuzileiro na Segunda Guerra Mundial.

Essa simplicidade diz muito sobre ele. Lee Marvin sabia que os aplausos podiam ser lindos, mas também passageiros. Eu sabia que um prêmio podia ser dividido com um cavalo se a cena merecesse. E sabia, talvez melhor do que ninguém, que o verdadeiro peso de uma vida nem sempre está no que o público celebra, mas no que uma pessoa carrega em silêncio.

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