ABNEGAÇÃO 2 - EMMANUEL *

 Mais profunda do que a ação de solidariedade, pura e simplesmente.

 Mais nobre do que o gesto asceta de desprezo e indiferença pelo mundo.

 Mais elevada do que o altruísmo no seu sentido sociológico.

 A abnegação é a oferenda de amor ao próximo que leva ao sacrifício

como forma inicial de caridade relevante.

 Tem origem nos pequenos cometimentos do auxílio fraternal, com

renúncia pessoal, mediante a qual a imolação reserva para quem a exerce a

alegria de privar-se de um prazer, em prol do gozo de outrem.

 Uma noite de sono reparador trocada pela vigília junto a um enfermo não

vinculado diretamente aos sentimentos, quer pela consangüinidade ou por interesses de outra procedência;

 A cessão de um bem que é preciso e quiçá faça falta, desde que

constitua alegria de outra pessoa;

 A paciência e a doçura na atitude, com esforço e sem acrimônia interna,

na desincumbência de um grave mister, dirigido às criaturas humanas;

 A jovialidade, ocultando as próprias dores, de nodo a não afligir aqueles

com os quais se convive;

 A perseverança discreta no trabalho mortificante, sem queixa nem

enfado, desde que resultem benefícios para os demais;

 A ação não violenta, o silêncio ante a ofensa, a não defesa em face de

indébitas acusações, considerando, com esse esforço sacrificial, não

comprometer nem ofender a ninguém, são expressões de renúncia ao amorpróprio, dando lugar à abnegação, que ora escasseia entre as criaturas, e, no

entanto, é essencial para a construção do bem entre os homens da Terra.

 Um gesto de abnegação fala mais expressivamente do que brilhantes

páginas escritas ou discursos de alta eloqüência e rebuscada técnica retórica.

 A abnegação felicita quem a recebe, mas santifica quem a exercita.

 O utilitarismo e o imediatismo modernos encontram soluções eufemistas,

por meio de processos de transferência para as realizações que recomendam a

abnegação de cada um.

 Nesse sentido o egoísmo é um entrave dos mais impeditivos para a

consecução do sacrifício com que se pode enflorescer de bênçãos a cruz da

abnegação.

*

 Diante de um esforço que te cabe brindar a alguém que sofre, não

transfiras a oportunidade de ser abnegado.

 Sob pretexto algum te poupes à operosa produção da felicidade, se o

cometimento te exige abnegação.

 Melhor ser o sacrificado pelo bem e pelo progresso dos seres do que o

usufrutuário das coisas.

 No ato de espalhar o conforto moral, não entre teças opiniões

desairosas, nem te apresentes na condição de mártir a fim de inspirares

simpatia. 


Sê autêntico no dever.

 O abnegado se desconhece. Ama com devotamento, e a flama do amor

que lhe arde no íntimo raramente dá-lhe tempo para pensar primeiro em si,

porqüanto os problemas e as dores dos seus irmãos em Humanidade têm para

ele regime de prioridade.

Se, todavia, desejares um protótipo que te expresse com mais veemência

a grandeza da abnegação, recorre a Jesus que, em se esquecendo de si

mesmo, abraçou a cruz do sacrifício, a tudo renunciando, a fim de, por essa

forma, testemunhar o seu afeto e devoção por todos nós.

Oxalá, assim, a abnegação te dulcifique o ser e te faça realmente cristão. 


EMMANUEL/CHICO XAVIER

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