Até quem diz não crer respira. Até quem se sente sozinho carrega no peito esse vínculo silencioso ----
No hebraico antigo, quatro letras guardavam o Nome que a boca temia pronunciar: YHWH, o Tetragrama sagrado. Mais que palavra, ele se tornou reverência. Mais que som, mistério. Uma tradição espiritual diz que essas letras se aproximam do ritmo da respiração: o ar que entra, o ar que sai, o fôlego que ninguém fabrica e todos recebem.
O primeiro ato do recém-nascido é respirar. Antes de entender o mundo, antes de chamar mãe, antes de aprender qualquer oração, o pulmão se abre e a vida entra como visita divina. O último gesto, quando a jornada se encerra, também é um sopro. Entre um fôlego e outro, a criatura atravessa perdas, amores, culpas, alegrias, quedas, perdões, e sem perceber repete, no corpo, uma memória do Criador.
No Gênesis, Deus sopra nas narinas do homem o fôlego de vida. A matéria deixa de ser apenas pó. Torna-se alma encarnada, consciência em movimento, templo frágil carregando eternidade. Respirar, nessa leitura, não é só função do corpo. É lembrança viva de que a existência começou por um sopro de Deus.
Até quem diz não crer respira. Até quem se sente sozinho carrega no peito esse vínculo silencioso. A oração pode faltar nos lábios, mas o ar continua entrando e saindo, paciente, como se Deus ainda dissesse: estou aqui.
Quando a angústia aperta, o peito prende. Quando a paz visita, o ar se alarga. A respiração revela o que a boca disfarça. Talvez viver seja pronunciar sem voz o Nome sagrado, até que o último suspiro nos devolva ao Mistério de onde viemos.

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