Ela tinha apenas oito anos quando testemunhou uma morte que mudaria o rumo de sua vida.
Uma mulher da nação Omaha estava gravemente doente. Sofria dores intensas e precisava de ajuda médica urgente. Mensageiros foram enviados repetidas vezes para chamar o médico responsável pela reserva. Chamaram-no uma vez. Depois outra. E mais outra.
Ele nunca apareceu.
Antes do amanhecer, a mulher morreu.
Mais tarde, quando as pessoas perguntaram por que o médico não havia atendido ao chamado, a resposta foi cruel em sua simplicidade:
“Era apenas uma indígena.”
A menina que ouviu aquelas palavras chamava-se Susan La Flesche.
Naquele momento, ela compreendeu algo que jamais esqueceria: para muitas pessoas, a vida de seu povo valia menos.
E decidiu que faria alguma coisa a respeito.
Susan nasceu em 1865, na Reserva Omaha, em Nebraska. Era filha de Joseph La Flesche, conhecido como Olho de Ferro, o último chefe oficialmente reconhecido da nação Omaha. Seu pai acreditava que a educação seria essencial para a sobrevivência de seu povo em um mundo que mudava rapidamente.
Ele costumava dizer aos filhos:
“Aprendam. Adaptem-se. Ou desaparecerão.”
Susan levou essas palavras consigo.
Ainda adolescente, deixou a reserva para estudar a milhares de quilômetros de casa. Enfrentou preconceito, solidão e dificuldades financeiras, mas recusou-se a desistir.
Em uma época em que poucas mulheres frequentavam universidades e menos ainda estudavam medicina, ela seguiu adiante.
Em 1889, formou-se em medicina no prestigiado Woman's Medical College of Pennsylvania.
Tinha apenas 24 anos.
Tornou-se a primeira mulher indígena dos Estados Unidos a obter um diploma de medicina.
Muitos acreditavam que ela permaneceria no leste do país, onde poderia construir uma carreira confortável e respeitada.
Mas Susan tinha outros planos.
Ela voltou para casa.
Voltou para as planícies de Nebraska.
Voltou para as pessoas que haviam sido esquecidas.
Como única médica responsável por uma vasta região da reserva, atendia mais de mil pessoas espalhadas por centenas de quilômetros. Viajava a cavalo durante tempestades de neve, cruzava estradas de lama, enfrentava noites congelantes e atendia qualquer pessoa que precisasse dela.
Realizava partos.
Tratava pneumonia.
Combatia surtos de tuberculose.
Visitava idosos.
Cuidava de crianças.
E fazia tudo isso recebendo muito menos do que médicos brancos que exerciam funções semelhantes.
Mas Susan entendia que salvar vidas não significava apenas distribuir remédios.
Ela ensinava higiene básica, incentivava a ventilação das casas e explicava como evitar a propagação de doenças infecciosas. Medidas simples que ajudaram a reduzir o sofrimento de inúmeras famílias.
Com o passar dos anos, percebeu que sua comunidade precisava de algo maior.
Precisava de um hospital.
Ela pediu ajuda ao governo inúmeras vezes.
As respostas foram sempre negativas.
Então decidiu construir um por conta própria.
Escreveu cartas, arrecadou doações e mobilizou apoiadores.
Depois de anos de esforço, em 1913, inaugurou o Hospital Walthill, o primeiro hospital financiado por recursos privados dentro de uma reserva indígena nos Estados Unidos.
A instituição possuía enfermarias, centro cirúrgico, maternidade e quartos para pacientes. Atendia indígenas e não indígenas, oferecendo cuidados a quem precisasse.
Era um sonho transformado em realidade.
Mas havia um detalhe doloroso.
Enquanto o hospital finalmente abria as portas, Susan travava sua própria batalha.
Ela sofria de um câncer ósseo agressivo que avançava lentamente pelo corpo.
Mesmo doente, continuou trabalhando.
Continuou visitando pacientes.
Continuou atendendo chamados.
Continuou fazendo aquilo que havia prometido a si mesma quando ainda era uma criança.
Susan La Flesche morreu em 18 de setembro de 1915, aos cinquenta anos.
Sua vida começou em uma tenda nas planícies de Nebraska e terminou depois de transformar a medicina para seu povo.
Entre esses dois momentos, existiram milhares de quilômetros percorridos a cavalo, incontáveis pacientes atendidos e uma dedicação que nunca diminuiu.
O médico que ignorou o pedido de ajuda daquela mulher indígena jamais imaginou que sua indiferença inspiraria uma das maiores médicas da história americana.
Mas inspirou.
E Susan La Flesche passou o resto da vida garantindo que ninguém fosse tratado como se sua vida não tivesse valor.

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