Henia dedicou sua vida a contar o que aconteceu para que essa memória não desaparecesse """

 

A mãe embrulhou-a em um cobertor, colocou-a dentro de uma mala de couro e fechou a tampa com o coração na garganta.

Lá dentro estava Henia Lewin, uma menina judia de apenas três anos e meio. Lá fora, o gueto de Kovno, na Lituânia ocupada, onde cada controle podia decidir o destino de uma família inteira. Seus pais já a tinham escondido antes em um compartimento secreto construído na despensa do apartamento, mas eles perceberam que não bastava escondê-la. Tinha que tirá-la de lá. E Gita Wisgardisky, sua mãe, decidiu fazê-lo.

Henia sobreviveu porque cotou em uma mala.

Depois foi entregue a uma família cristã lituana que a manteve segura por cerca de dois anos, até o fim da guerra. Contra todas as probabilidades, seus pais também conseguiram sobreviver e a encontraram novamente. Aquela reunião parecia encerrar a história, mas com o tempo Henia descobriu que aquele gesto não tinha sido só por ela. Sua mãe também tinha ajudado a tirar outras crianças do gueto. Quando Henia lhe perguntou quantos tinham sido, Gita respondeu algo que resume tudo: não os contou. Anos mais tarde, no seu funeral, outra sobrevivente revelou a Henia que tinham sido dezenas.

É isso que torna esta história tão comovente.

Não fala só de uma mãe que salvou a filha. Fala de uma mulher que entendeu o perigo antes de muitos, que escolheu agir sob vigilância constante e que transformou uma simples mala em um abrigo contra a barbárie. Em tempos em que tantos foram reduzidos ao silêncio, Gita encontrou uma maneira de responder corajosamente.

Henia dedicou sua vida a contar o que aconteceu para que essa memória não desaparecesse com aqueles que a viveram. E talvez aí esteja o mais poderoso de tudo: houve pessoas que arriscaram cada batimento cardíaco para salvar uma vida, sem esperar homenagem, sem manter contas, sem imaginar que décadas depois alguém continuaria a pronunciar seus nomes.

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