INTERCÂMBIO SOCIAL """

 O homem, inquestionavelmente, é um ser gregário, organizado pela

emoção para a vida em sociedade.

 O seu insulamento, a pretexto de servir a Deus. constitui uma violência à

lei natural, caracterizando-se por uma fuga injustificável às responsabilidades

do dia-a-dia.

 Graças à dinâmica da atualidade, diminuem as antigas incursões ao

isolacionismo, seja nas regiões desérticas para onde o homem fugia a buscar

meditação, seja no silêncio das clausuras e monastérios onde pensava perderse em contemplação.

 O Cristianismo possui o extraordinário objetivo de criar uma sociedade

equilibrada, na qual todos os seus membros sejam solidários entre si.

 Negar o mundo” do conceito evangélico, não significa abandoná-lo, antes

criar condições novas, a fim de modificar-lhe as estruturas negativas e

egoísticas, engendrando recursos que o transformem em reduto de esperança,

de paz, perfeito símile do “reino dos céus”, a que se reportava Jesus.

 A vivência cristã se caracteriza pelo clima de convivência social em

regime de fraternidade, no qual todos se ajudam e se socorrem, dirimindo

dificuldades e consertando problemas.

 Viver o Cristo é também conviver com o próximo, aceitando-o conforme

suas imperfeições, sem constituir-lhe fiscal ou pretender corrigi-lo, antes

acompanhando-o com bondade, inspirando-o ao despertamento e à mudança

de conduta de motu proprio.

 A reforma pessoal de alguém inspira confiança, gera simpatia, modifica o

meio e renova os cômpares com quem cada um se afina.

 Isolar-se, portanto, a pretexto de servir ao bem não passa de uma

experiência na qual o egoísmo predomina, longe da luta que forja heróis e

constrói os santos da abnegação e da caridade.

*

 Criaturas bem intencionadas sonham com comunidades espiritualizadas,

perfeitas, onde se possa viver em regime da mais pura santificação.

 Assim tocadas programam colméias, organizam comitês para tal fim, e

os mais ambiciosos laboram por cidades onde o mal não exista e todos se

amem. .

 Em verdade, tal ambição, nobre por enquanto impraticável senão

totalmente irrealizável, representa uma reminiscência ancestral das antigas

comunidades religiosas onde o atavismo criou necessidades de elevação num

mundo especial, longe das realidades objetivas entre os homens em evolução.

 Jesus, porém, deu-nos o exemplo.

 Desceu das Regiões Felizes ao vale das aflições, a fim de ajudar.

 Não convocou os privilegiados, antes convidou os infelizes, os rebeldes e

rejeitados, suportando suas mazelas e assim mesmo os amando.

 No Colégio íntimo esteve a braços com as sistemáticas dúvidas dos

amigos, suas ambições infantis, suas querelas frívolas, suas disputas.

 Não se afastou deles, embora suas imperfeições, não se rebelou contra

eles. 


Ajudou-os, íncansavelmente, até os momentos extremos, quando,

sofrendo, no Getsemani, surpreendeu-os, mais de uma vez, a dormir.

 E retornou ao convívio deles, quando atemorizados, a sustentá-los e

animá-los, a fim de que não deperecessem na fé, nem na dedicação em que se

fizeram mais tarde dignos do seu Mestre, em face dos testemunhos

libertadores a que se entregaram.

*

 Atesta a tua confiança no Senhor e a excelência da tua fé mediante a

convivência com os irmãos mais inditosos do que tu mesmo.

 Sê-lhes a lâmpada acesa a clarificar-lhes a marcha.

 Nada esperes dos outros.

 Sê tu quem ajuda, desculpa, compreende.

 Se eles te enganam ou te traem, se censuram-te ou exigem-te o que te

não dão, ama-os mais, sofre-os mais, porqüanto são mais carecentes de

socorro e amor do que supões.

 Se conseguires conviver pacificamente com os amigos difíceis e fazê-los

companheiros, terás logrado êxito, porqüanto Jesus em teu coração estará

sempre refletido no trato, no intercâmbio social com os que te buscam e com

os quais ascendes na direção de Deus. 


EMMANUEL/CHICO XAVIER

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