Minha casa é esta mulher que agora dorme ao meu lado.
Enquanto ela repousa, o mundo parece repousar com ela. O silêncio torna-se mais sereno, as paredes mais acolhedoras, e até o tempo desacelera para contemplar a paz que a sua presença espalha.
Quando ela despertar, a vida despertará também. As portas voltarão a abrir-se para os dias, a água retomará o seu curso, a luz encontrará novamente as plantas, e a velha escada reconhecerá os passos que lhe devolvem sentido. Eu regressarei às palavras, aos livros e aos afazeres, mas a sua voz permanecerá ao meu redor como uma luz discreta, iluminando cada instante do meu dia.
Quando ela partir para o trabalho, continuarei a encontrá-la em toda parte. Num objeto esquecido sobre a mesa, numa flor junto à janela, numa fotografia, numa cortina movida pelo vento. Porque esta mulher não ocupa apenas um lugar na casa; ela habita cada canto dela. As suas mãos deixaram marcas invisíveis de cuidado, e a sua presença transformou paredes em abrigo e espaços em lar.
Ela é a minha casa.
Não porque viva entre estas paredes, mas porque é nela que encontro descanso, direção e sentido.
Quando o egoísmo, a distância ou a indiferença ameaçam separar-nos, a casa escurece. As janelas deixam de trazer luz, os quartos perdem o seu significado e o silêncio torna-se pesado. Tudo continua no mesmo lugar, mas nada permanece igual. Habitar a casa passa a ser como enfrentar uma tempestade sem teto, uma solidão sem refúgio.
Porque uma casa sem amor é apenas um edifício.
Quando ela está distante, tudo se torna distante. Os corredores parecem mais longos, os objetos mais inúteis e os dias mais difíceis de atravessar. Cada canto recorda aquilo que fomos e sussurra, com melancolia, que já soubemos ser melhores.
Mas quando a alegria regressa, tudo floresce outra vez.
Quando o amor reencontra o seu caminho e os nossos corações voltam a caminhar na mesma direção, a casa ilumina-se por completo. Os projetos recuperam sentido, os sonhos voltam a respirar, e cada quarto se transforma numa celebração silenciosa daquilo que construímos juntos.
Então a vida volta a correr pelas escadas, pelas janelas e pelos dias.
E eu compreendo, mais uma vez, que lar nunca foi o lugar onde vivo.
Lar é a mulher que dorme ao meu lado.
E enquanto ela existir, nunca estarei verdadeiramente sem casa.

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