Nem todo auxílio chega com aparência de milagre. Às vezes, vem como trabalho pesado, conta apertada, porta fechada, crítica amarga, demora que desmancha a pressa e nos obriga a perguntar, com sinceridade, que espécie de criatura estamos nos tornando.
Nas páginas mediúnicas de Chico Xavier, especialmente nas lições atribuídas a Emmanuel e André Luiz, a vida espiritual não aparece como refúgio para quem deseja fugir da experiência humana. Ela surge como continuidade lúcida daquilo que começamos aqui. A criatura leva consigo o que fez da dor, do serviço, da ofensa recebida, da oportunidade recusada e da mão estendida quando ninguém aplaudia.
Muitas vezes pedimos facilidade, e Deus nos oferece responsabilidade. Pedimos descanso, e a vida nos coloca diante de alguém que sofre mais. Pedimos resposta, e chega uma tarefa. No começo, parece contradição. Depois, compreendemos que o bem praticado em favor de alguém reorganiza também as nossas próprias forças.
Quem ajuda não se torna superior ao ajudado. Apenas se recorda de que também precisa de socorro. A mão que oferece pão aprende sobre a própria fome. O ouvido que escuta uma aflição descobre suas próprias impaciências. O coração que consola percebe que ainda carrega zonas frias, pedindo humanidade.
As dificuldades não são belas em si mesmas. Bela é a alma que não se entrega à brutalidade depois de sofrer. Bela é a pessoa que poderia endurecer e, ainda assim, escolhe não espalhar amargura. Bela é a consciência que transforma a própria queda em cuidado para que outro não se machuque no mesmo lugar.
Agradecer pelas lutas não é romantizar feridas. É reconhecer que, sem elas, talvez ainda estivéssemos distraídos, exigentes, frágeis diante da menor contrariedade.
Deus não desperdiça experiência alguma. Até a crítica injusta pode revelar vaidade escondida. Até a perda pode libertar do apego. Até o cansaço pode ensinar medida. E o serviço ao próximo, quando nasce limpo, nos devolve por dentro aquilo que imaginávamos perdido.

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