O CIGARRO QUE MATOU UMA RAINHA ANTES DA COROA. Em 22 de maio de 1867, a arquiduquesa Mathilde da Áustria virava uma tocha humana.
Ela tinha 18 anos e estava recostada no parapeito de uma janela do Schloss Hetzendorf, palácio da imperatriz Elisabeth. Vestia camadas e camadas de tule sobre crinolina, último grito da moda parisiense. Estava pronta para ir ao Teatro quando decidiu acender um cigarro escondido. O pai, arquiduque Albrecht, duque de Teschen, tinha proibido terminantemente. Fumar era inaceitável para uma dama. Mathilde ignorou.
Conversava com o primo, arquiduque Friedrich, quando avistou o pai entrando nos jardins. Em pânico, escondeu o braço com a piteira atrás do corpo. O tule encostou na brasa. Em segundos, o vestido virou uma bola de fogo. Ela gritou e se debateu na frente do pai, implorando socorro enquanto as chamas subiam pela saia de crinolina.
O cigarro era mais que rebeldia. Era pressão. Mathilde estava sendo negociada para um casamento com Umberto, príncipe herdeiro da Itália. A Áustria tinha perdido Veneza para os italianos em 1866 e tentava selar a paz casando uma Habsburgo com o inimigo. O pai dela, que comandou tropas contra a Itália, odiava a ideia. A jovem de 18 anos estava no meio de um tabuleiro político que podia decidir o futuro de dois impérios. A piteira era a única coisa que ela controlava.
Quando apagaram o fogo, as costas, o braço, o pescoço e as pernas tinham queimaduras de segundo e terceiro graus. O primo Friedrich, com a cabeça baixa, confessou que ela fumava quando tudo começou. Levaram Mathilde ao hospital. Os médicos tentaram de tudo com os bálsamos da época. Ela agonizou por 15 dias. Morreu em 6 de junho de 1867 sem completar 19 anos.
O funeral foi em 10 de junho na Igreja dos Capuchinhos em Viena. O coração foi enterrado separado um dia antes na Igreja Agostiniana, tradição dos Habsburgo. Milhares de vienenses foram ao cortejo fúnebre, feito à noite, à luz de tochas. O imperador Francisco José e a imperatriz Elisabeth, abalada, seguiram o caixão. Elisabeth nunca mais esqueceu o cheiro de tule queimado.
Umberto da Itália casou no ano seguinte com outra princesa. A aliança por casamento morreu com Mathilde. Ela não morreu por um acidente estúpido, causado por um vestido da moda, um cigarro escondido e o peso de ser uma peça num jogo de reis.
Texto: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagem: Cena do acidente com a arquiduquesa Mathilde gerada por I.A., segundo retrato da mesma.´

Comentários
Postar um comentário