Aquela noite havia sido longa, intensa, como tantas outras no Centro Espírita Luiz Gonzaga. Chico Xavier tinha atendido centenas de pessoas, uma após outra, carregando cada dor alheia como se fosse sua. Mas enquanto o salão ainda guardava gente esperando, algo errado acontecia com ele.
Um dos olhos começou a doer de um jeito que não dava para ignorar. Uma dor que crescia, pulsava, que chegou a fazer o olho sangrar. Insuportável. Mas havia pessoas ali. Pessoas que haviam esperado, que precisavam, que confiavam.
Como explicar? Como deixar tudo parado?
Chico se isolou por alguns minutos, discretamente, como quem busca um fôlego antes de continuar. Foi ali que viu um dos assistentes espirituais do Dr. Bezerra de Menezes, seu guia e médico de confiança, que naquele momento não estava presente. O homem se chamava Antônio Flores, conhecido por sua dedicação e por seu vínculo profundo com o doutor.
Chico não pediu.
Implorou.
— Irmão Antônio Flores… você que é um dos pupilos mais sinceros do Dr. Bezerra, peça a ele um remédio para os meus olhos. Estou sofrendo muito.
O bondoso espírito ouviu, prometeu interceder e partiu.
Poucos minutos se passaram.
Quando Antônio Flores voltou, não vinha sozinho. Ao lado dele, estava o próprio Dr. Bezerra de Menezes. O médico olhou para Chico com aquela mistura de seriedade e afeto que só quem conhece a alma do outro consegue ter.
— Por que você não me disse antes que estava mal da vista? Eu já teria te medicado!
Chico, emocionado, respondeu com aquela humildade que era marca sua, mas também com aquele humor delicado que brotava mesmo nos momentos mais difíceis:
— Dr. Bezerra… eu não lhe peço como gente. Peço como uma besta que precisa se curar para continuar sua missão, espiritual e terrena. Cure, por caridade, os meus olhos doentes.
O médico ficou em silêncio por um instante.
Depois, com um olhar que misturava ternura e uma suave repreensão, respondeu:
— Se você, Chico, é uma besta… então eu, quem sou?
E Chico, sem hesitar, com os olhos marejados mas um leve sorriso no canto da boca, disse:
— O senhor, Dr. Bezerra… é o Veterinário de Deus.
O salão lá fora ainda estava cheio.
Mas naquele pequeno espaço, entre o sofrimento real de um homem e a presença invisível de quem veio cuidar dele, aconteceu algo que resume muito do que Chico Xavier foi a vida inteira: alguém que se via menor do que sua própria missão, e que mesmo na dor, mesmo no limite, ainda encontrava gratidão.
E leveza.
Porque quem carrega o peso dos outros com amor… raramente reclama do próprio.

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