Allan Kardec não apresenta o homem de bem como criatura de aparência religiosa, mas como consciência educada pelo amor em ação.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ao afirmar que ele é “bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças, nem de crenças”, Kardec retira a virtude do campo das palavras e a coloca no terreno da convivência.
A medida espiritual de alguém não está na doutrina que declara seguir, mas na forma como trata quem pensa diferente, quem possui outra fé, outra origem, outra dor, outra história. A benevolência sem distinção é uma prova difícil, porque exige vencer o orgulho que separa, o preconceito que diminui e a vaidade que pretende possuir Deus em exclusividade.
O homem de bem não pergunta primeiro a crença do necessitado.
Vê nele um irmão.
Não exige semelhança para oferecer respeito. Não transforma diferença em ameaça. Não usa a religião como fronteira, mas como ponte. Compreende que toda criatura humana, antes de qualquer título, partido, raça, templo ou opinião, é espírito em marcha, filho do mesmo Pai, submetido às mesmas leis de progresso, responsabilidade e reparação.
Kardec ensina uma fraternidade racional, sem sentimentalismo vazio. Amar o próximo não é aprovar todos os atos, nem renunciar ao discernimento. É recusar o ódio como método. É corrigir sem humilhar. Discordar sem desumanizar. Defender a verdade sem perder a caridade.
Muita gente deseja um mundo melhor, mas preserva pequenas guerras dentro de si.
Rejeita, ironiza, exclui, julga, mede o valor do outro pela aparência, pela crença, pela condição social. Depois, espera paz como se a paz pudesse nascer de corações armados.
O Espiritismo começa a transformar o mundo quando transforma a maneira como olhamos o outro.
A grandeza moral não está em vencer debates.
Está em reconhecer irmãos onde o orgulho só enxerga estranhos.
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