Adeus Auta de Souza / Chico Xavier ¨¨¨¨

 

Em 1931, Chico acompanhava o enterro de um amigo em Pedro Leopoldo quando um padre, desconfiado dos rumores sobre sua mediunidade, resolveu provocá-lo. 

O sacerdote perguntou se era verdade que ele vinha recebendo mensagens do outro mundo, e Chico respondeu com calma que sentia alguém ocupar seu braço e se servir dele para escrever. 

O padre então o advertiu sobre o perigo dos espíritos das trevas, mas Chico insistiu que aquilo que se comunicava com ele só ensinava o bem.

Foi nesse clima de tensão que o padre tirou um papel em branco de um livro e desafiou Chico: já que estavam no cemitério, veriam se algum espírito desejava escrever ali mesmo. 

E foi exatamente ali, no meio do sepultamento, cercado por silêncio, dor e o peso daquela despedida, que Chico teria se concentrado e sentido o braço tomado por uma entidade, psicografando um soneto atribuído a Auta de Souza.

O poema ficou conhecido como “Adeus”, e hoje está presente na obra "Parnaso de Além Túmulo". Só o título já parece carregar tudo o que aquela cena tinha de mais forte. Não foi uma mensagem recebida em ambiente preparado, nem em sessão controlada. 

Foi no coração do luto, no instante em que a terra ainda parecia aberta para a partida, que a poesia teria surgido como se atravessasse o véu entre os dois lados.

*

Adeus

Auta de Souza / Chico Xavier

O sino plange em terna suavidade,

No ambiente balsâmico da igreja;

Entre as naves, no altar, em tudo adeja

O perfume dos goivos da saudade.

Geme a viuvez, lamenta-se a orfandade;

E a alma que regressou do exílio beija

A luz que resplandece, que viceja,

Na catedral azul da imensidade.

“Adeus, Terra das minhas desventuras...

Adeus, amados meus...”

— diz nas alturas

A alma liberta, o azul do céu singrando...

— Adeus...

— choram as rosas desfolhadas,

— Adeus...

— clamam as vozes desoladas

De quem ficou no exílio soluçando...

*

Esse episódio mostra Chico como alguém que não dependia de condições especiais para receber as mensagens. Para quem observa de fora, é justamente isso que torna tudo mais intrigante: a ideia de que, em pleno cemitério, entre a despedida de um corpo e o silêncio do enterro, teria nascido um poema vindo de outra dimensão.

E é por isso que essa história continua sendo lembrada. Porque ela não fala apenas de mediunidade. Ela fala de um instante em que a provocação, a dor da partida, o silêncio do cemitério e a poesia do além teriam se encontrado no mesmo ponto.


Chico - Cartas de Paz e Consolação

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