E quem vai embora, não vai tão longe quanto parece... *****

 

Minha gata passou 8 anos dormindo no travesseiro do meu marido. No dia em que ele morreu no hospital, ela foi dormir lá antes de eu receber a ligação...

Meu nome é Conceição. 67 anos. Bairro do Benfica.

Fortaleza CE.

Casada por 44 anos com seu Raimundo: pedreiro aposentado, torcedor fanático do Fortaleza, homem de poucas palavras e muita presença. O tipo de marido que nunca disse “te amo” com essa frase exata, mas que acordava às 5 da manhã pra fazer café antes de você abrir os olhos.

A gata se chama Mimi...

Vira-lata cinza com uma mancha branca no peito, olhos amarelos, personalidade difícil. Apareceu no quintal há 9 anos numa chuva de agosto, magra demais, e nunca mais foi embora. Desde o primeiro dia, Mimi escolheu o Raimundo.

Não eu, que dei comida. Não minha neta, que ficava correndo atrás. O Raimundo, que fingia que não gostava de gato mas que dormia toda noite com ela enrolada na cabeça, no travesseiro dele, do lado esquerdo. Quando ele viajava pra visitar os filhos no interior, duas, três vezes por ano, a Mimi ia dormir no travesseiro vazio...

Sempre, como se guardasse o lugar, como se dissesse: ele volta...

Em março do ano passado, o Raimundo teve o AVC. Caiu no banheiro de madrugada, eu ouvi o baque...

UTI do hospital geral. Prognóstico que os médicos explicavam com palavras difíceis que significavam uma coisa simples: prepare-se. Fiquei dez dias indo pro hospital de manhã, voltando de tarde pra cuidar da Eduarda, minha neta de 4 anos que mora comigo desde que a filha se separou...

Raimundo ficava acordado às vezes, segurava minha mão. Não falava, o AVC tinha comprometido a fala. Mas os olhos falavam, aqueles olhos de homem acostumado a dizer tudo sem palavra...

Em casa, a Mimi estava estranha, não comia direito, ficava no corredor, andando de um lado pro outro. As vezes se sentava na porta do quarto e ficava olhando a cama por tempo longo. Achei que era o estresse da rotina quebrada  que sentia falta dele...

Numa terça-feira, dia 14 de março. Voltei do hospital às 18h. Raimundo tinha passado o dia agitado, enfermeira disse que é comum antes de... ela não terminou a frase, não precisou...

Cheguei em casa, dei banho na Eduarda, fiz sopa, coloquei ela pra dormir...

Eram 21h30. Fui me sentar na sala, aquele cansaço nos ossos, que só cuidador de UTI conhece. A Mimi estava na sala comigo. De repente, sem motivo, ela se levantou, foi pro corredor, entrou no quarto, pulou na cama, e foi direto pro travesseiro do Raimundo. Deitou, enrolou, fechou os olhos. Fui até a porta do quarto e fiquei olhando...

Ele não estava viajando, ele estava a seis quilômetros dali, no hospital, numa cama de UTI com monitor cardíaco, por que agora?

Senti um frio que não era do ventilador...

Voltei pra sala, peguei o terço, comecei a rezar sem saber muito bem o que pedir, se era pra ele ficar ou pra ele ir sem sofrer...

Às 23h17, o celular tocou.

Número do hospital. Atendi com a mão tremendo. A voz da enfermeira era daquele jeito, aquela cadência específica, aquela pausa antes de começar, que você reconhece antes mesmo de ouvir a palavra — Senhora Conceição, o senhor Raimundo... Não precisei ouvir o resto...

Fui até o quarto. A Mimi estava no travesseiro dele, olhos abertos, me olhando. E eu entendi. Ela sabia às 22h, antes da ligação, antes de qualquer explicação racional...

Ela tinha ido dormir no travesseiro dele, não porque ele estava viajando, mas porque ele tinha passado por casa antes de ir de vez...

Sentei na beira da cama. Não chorei de imediato. Senti aquele estado estranho de quem recebe notícia grande demais pra caber de uma vez, coloquei a mão no travesseiro do lado da Mimi, ainda estava morno, ou eu quis que estivesse... até hoje não sei...

A Mimi encostou o focinho na minha mão, ronronou, aquele ronco fundo, de frequência baixa, que você sente na palma da mão mais do que ouve...

E eu, que tinha segurado o choro dez dias inteiros pra ser forte no hospital, pra ser forte pra Eduarda, pra ser forte porque: “a família precisa de mim,” desabei...

Chorei com a cabeça no travesseiro dele, com a Mimi enrolada no meu pescoço, por quanto tempo, não sei. Nos dias que se seguiram, a Mimi não saiu do quarto, não voltou pra sala, não foi pra cozinha pedir comida no horário. Ficou no quarto, no travesseiro dele...

Minha filha sugeriu tirar o travesseiro: — mãe, vai ser mais fácil pra voce... não deixei. Porque enquanto a Mimi dormia ali, eu sentia que o quarto ainda guardava algo. Não assombração, não medo, mas presença...

Na semana do velório, uma cunhada me convidou pro centro espírita que ela frequentava. Nunca tinha ido. Raimundo era católico praticante, eu ia à missa, nunca tínhamos explorado outro caminho, mas fui...

Sentei numa cadeira de plástico branco, sala simples, hino cantado por gente comum que não se envergonhava de chorar...

Depois, uma trabalhadora espiritual de meia-idade, Irmã Fátima, cabelo preso, voz calma de quem já sentou do lado de muita dor, veio até mim. Não sabia nada da minha história. perguntou: — Voce tem um animal em casa?

— Tenho, uma gata.

Ela acenou com a cabeça, como quem confirma algo que já sabia: — Ele passou por lá antes de ir. Os animais percebem esse momento, a saída do espírito do corpo ainda é gradual, não é instantânea como parece. Ele circulou pelo que amava antes de se desligar completamente. A gata sentiu, foi instintivo.

Fiz a pergunta que eu precisava fazer: — Ele sofreu? Ela ficou quieta um segundo. Então falou: — O que chegou até a mim, é de alguém em paz. Que estava cansado e foi com leveza. E que a maior preocupação que tinha era com você ficando sozinha. Fechei os olhos. Raimundo, preocupado comigo até o fim. Igual a vida inteira...

Voltei pra casa naquela noite diferente. Não resolvida, dor de 44 anos de companhia não resolve em sessão nenhuma, mas diferente. Entrei no quarto,

a Mimi abriu os olhos no travesseiro, me olhou. E pela primeira vez desde a morte dele, eu falei em voz alta pro quarto: — Raimundo, eu sei que você passou aqui, obrigada por não ir sem se despedir. A Mimi fechou os olhos, e ronronou...

Três meses depois, numa tarde de domingo, a Mimi desceu do travesseiro, veio pra sala, pulou no sofá do lado de mim, coisa que não fazia desde que ele foi internado. Deitou no meu colo. Eu fiquei parada, com medo de me mexer e ela ir embora. Fiquei assim por uma hora. Novela passando sem eu ouvir. Mimi no colo, pesada, quente, ronronar lento...

Contei pra minha filha mais tarde: — Acho que ela me aceitou de vez hoje. Minha filha chorou: — Acho que ela te devolveu ele, mãe. Do jeito que dava...

Hoje a Mimi dorme no travesseiro dele três vezes por semana. Nos outros dias, dorme no meu. Como se tivesse dividido, como se tivesse chegado num acordo que eu não participei mas que me inclui...

A Eduarda, minha neta, outro dia perguntou: — Vovó, por que a Mimi fica no travesseiro do vovô se ele não tá mais aqui?Pensei em como explicar pra uma criança de 4 anos.

Depois respondi com a única coisa verdadeira que sabia: — Porque ela guarda o lugar dele. Pra ele saber que tem lugar sempre que quiser visitar...

Eduarda considerou isso por uns segundos com seriedade de criança que pesa as coisas antes de aceitar. Depois acenou:

— Faz sentido...

No espiritismo, aprende-se que o desligamento do espírito do corpo físico não é instantâneo, é gradual. Como acordar devagar de um sonho fundo. O espírito circula pelo que amava, casa, pessoas, objetos carregados de memória afetiva, antes de se orientar completamente pro plano espiritual...

Animais, especialmente os que conviveram com aquela pessoa, percebem esse campo energético com uma sensibilidade que o humano perdeu em algum ponto da evolução...

A Mimi não teve visão sobrenatural. Ela teve o que sempre teve: percepção afinada de quem passou 8 anos dormindo do lado de alguém, e aprendeu a reconhecer a frequência específica daquele amor...

Raimundo passou pelo quarto. Ela sentiu. Foi dormir no lugar dele. Pra ele saber que alguém tinha percebido...

E quem vai embora, não vai tão longe quanto parece...



Emmanuel Mensagens.

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