Olhe devagar.
Nem toda história que te incomoda está errada. Às vezes, ela apenas encostou num lugar seu que ainda lateja.
A vida do outro passa diante dos nossos olhos como uma janela acesa numa rua escura. A gente vê um gesto, uma decisão, uma coragem, uma liberdade, um amor, uma partida, uma escolha que não teríamos feito. E, antes de entender, já queremos apontar. Já queremos corrigir. Já queremos chamar de excesso aquilo que, dentro de nós, ainda falta.
Cuidado.
Tem julgamento que nasce menos da lucidez e mais da ferida.
A dor antiga gosta de vestir roupa de opinião. Fala firme, parece justa, usa palavras bonitas. Mas, por trás, existe uma parte nossa ainda presa no dia em que fomos deixados, traídos, diminuídos, trocados, esquecidos. Então a história do outro cutuca, e em vez de tocar a própria cicatriz, a gente tenta transformar a vida dele em erro.
Nem tudo que desperta desconforto precisa virar sentença.
Às vezes, basta silêncio. Um recolhimento honesto. Um copo d’água. Uma pergunta feita por dentro: “por que isso mexeu tanto comigo?”
Talvez a resposta não esteja na pessoa que você acusa.
Talvez esteja naquilo que você ainda não chorou direito. Na comparação que te fere. Na coragem que você não teve. Na liberdade que você invejou em segredo. Na lembrança que ainda manda em você sem pedir licença.
Olhar sem projetar é uma forma rara de limpeza.
É deixar o outro atravessar a própria estrada sem jogar sobre ele a poeira da nossa. É perceber que cada alma carrega seus abismos, suas tentativas, suas razões incompletas. É não usar a ferida como lente para deformar tudo que passa.
Antes de chamar a história de alguém de erro, encoste a mão no próprio peito.
Veja se não é ali que a vida está pedindo cuidado.
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