A história de Jeanna ===

 

Em 2004, uma mordida que parecia pequena colocou uma adolescente de Wisconsin diante de uma doença que, depois do aparecimento dos sintomas, quase sempre era fatal.

Jeanna Giese tinha 15 anos quando, durante uma missa em uma igreja de sua cidade, um morcego entrou no local e começou a voar entre os fiéis. Quando o animal pousou, Jeanna tentou retirá-lo da igreja. Foi nesse momento que ele a mordeu no dedo indicador da mão esquerda.

A ferida não parecia grave. Em casa, sua mãe limpou o dedo com água oxigenada, e a família não procurou atendimento médico. Naquele momento, ninguém imaginava que o morcego poderia estar infectado pelo vírus da raiva.

Durante algumas semanas, Jeanna continuou sua rotina normalmente. Cerca de cinco semanas depois, porém, começaram os primeiros sinais de que havia algo errado. Ela passou a apresentar cansaço, visão dupla, dificuldade para caminhar e tremores. Seu estado piorou rapidamente, e os médicos começaram a investigar diferentes possibilidades, incluindo infecções e doenças neurológicas.

A resposta veio quando amostras foram encaminhadas para análise no Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC. O resultado confirmou uma infecção pelo vírus da raiva.

O problema era que Jeanna já apresentava sintomas neurológicos. A raiva é uma infecção viral que atinge o sistema nervoso central e, depois que os sintomas aparecem, é considerada quase invariavelmente fatal. Até então, apenas um número extremamente pequeno de pacientes havia sobrevivido, e não existia um tratamento comprovadamente eficaz para uma pessoa já sintomática.

Foi nesse momento que o médico Rodney Willoughby decidiu tentar uma abordagem experimental. Em vez de tentar combater diretamente o vírus com um tratamento convencional — que não existia — a equipe procurou reduzir a atividade do cérebro de Jeanna e utilizar medicamentos para colocá-la em coma induzido. A ideia era diminuir a atividade cerebral enquanto o sistema imunológico tivesse tempo para produzir uma resposta contra o vírus.

Os médicos sabiam que não havia garantia de sucesso. Também havia o risco de Jeanna sobreviver à infecção, mas sofrer danos neurológicos permanentes.

Com a autorização da família, o tratamento começou em outubro de 2004. Jeanna permaneceu em coma induzido enquanto recebia uma combinação de medicamentos e cuidados intensivos. Durante esse período, sua equipe monitorava continuamente suas funções vitais e procurava sinais de que o organismo estava conseguindo controlar a infecção.

Depois de alguns dias, os médicos começaram a reduzir gradualmente a sedação para verificar como ela reagiria. O momento decisivo chegou quando tentaram estabelecer contato com ela.

Aos poucos, Jeanna começou a responder. Ela havia sobrevivido à infecção e, após um longo período de recuperação, conseguiu voltar a andar e a realizar diversas atividades do cotidiano.

O caso ficou conhecido como o Protocolo de Milwaukee, nome dado à abordagem experimental utilizada pela equipe médica. Jeanna Giese passou a ser considerada uma das primeiras pessoas conhecidas a sobreviver à raiva após o início dos sintomas sem receber vacinação prévia contra a doença.

Sua recuperação, no entanto, não foi imediata. Ela precisou de meses de reabilitação para recuperar força, coordenação e outras funções afetadas pela infecção e pelo período prolongado de internação.

O caso de Jeanna também chamou atenção para uma questão importante: uma mordida de morcego pode ser pequena e até passar despercebida, mas ainda assim representar risco de raiva. Quando existe contato direto com um morcego, a recomendação médica é procurar atendimento imediatamente, porque a profilaxia iniciada antes dos sintomas pode prevenir a doença de forma altamente eficaz.

A história de Jeanna não representou a descoberta de uma cura para a raiva, mas mostrou que, em circunstâncias excepcionais, a sobrevivência ainda poderia ser possível mesmo depois do aparecimento dos primeiros sintomas.

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Fontes:

CDC (Centers for Disease Control and Prevention)

New England Journal of Medicine

University of Wisconsin–Madison

Wisconsin Historical Society

 

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